Sou do tipo que tem fascinação besta por seriados de TV. ER está na lista dos meus preferidos. Talvez porque é bom sentir um mínimo de realidade. Mas longe de você.
Confesso também que não sou obececada por doenças, hipocondríaca _ ainda que a minha crise crônica de amigdalite na infância e a convivência com a irmã médica tenham me ensinado a diferença entre aspirina e novalgina, amoxil e bactrin, quando apelar para o tandrilax se o dorflex não faz mais efeito.
Também gosto muito de bulas. Elas possuem um certo sarcasmo com efeito ao contrário. Você se sente o pior dos homens quando toma consciência das reações adversas que um medicamento pode provocar no teu corpo e, se tiver juízo, não vai sentir nenhuma delas.
Me senti num capítulo do ER quando a última crise de enxaqueca chegou. Ela já é minha antiga conhecida, mas desta vez resolveu inovar com uma tontura de tirar qualquer um do sério. Na sala de emergência, peguei a troca de turno dos médicos.
Pacientes são números. Eu era a número dois, com complicações de enxaqueca e definida como "caso neurológico".
Fiquei pensando se eles me achavam meio pancada, se suspeitavam que eu estava fingindo os sintomas. Porque meus reflexos neurológicos estavam ótimos. A tomografia não apontou nenhum traço fora do percurso normal. Ainda bem, diga-se de passagem.
A paciente três, coitada, péssima. Caso de bronquite aguda, no oxigênio. A moça tinha um pavor no olhar capaz de comover qualquer enfermeiro nazista.
A quatro estava dormindo há mais de cinco horas, dopada por uma tarja preta qualquer. O filho a largou lá, sozinha na maca, dizendo que voltava. Nas noves horas que eu passei na emergência o rapaz não retornou.
O um era um caso difícil. Estava crente que tinha tido uma parada cardíaca. Os médicos garantiram que nada estava entupido, mas ele vestiu uma cara de cardiopata e não queria sair daquele leito de jeito nenhum.
Enquanto eu observava o meu ER, pensava na graça de ser sã. Como a realidade pode ser bem mais colorida se você tem consciência de todos os males que pode causar a seu corpo. E se faz de tudo para mantê-los bem longe de você.
Pensei ainda nas razões que nos levam a ser tão cruéis e impiedosos com quem carrega e abriga nossa pobre alma. As horas mal dormidas, o coração travado, a alimentação de má qualidade, a angústia que resvala para cantos indefinidos do cérebro, a falta de compaixão diária, as doses excessivas de mau-humor, a raiva.
Pensei que canto pouco, tomo banhos rápidos. Que não ligo mais o som de manhã. Que abandonei o Flamenco, a acupuntura.
Tento comer direito, faço ginástica pelo menos alguns dias, não sou do tipo ranzinza. Mas aqui, agora, tomando flunarizina (um novo princípio ativo na minha vida, para os que sofrem de labirintite), sei que há algo mais que eu possa fazer por mim. Mais que ver ER nas noites de quinta-feira.
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Um comentário:
eu vivo falando proce, fia...esse corrimento vai te matar...esse lugar so tem doido...vem pra ca prosear mais eu, duvido que oce tem perrengue aqui...
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