domingo, 6 de janeiro de 2008

Os outros, a vida, as sonatas

As palavras num alemão desencontrado corriam a tela. E eu perplexa, no meio da sala de cinema, sozinha, sem conseguir me mexer. Sim, tinha dificuldade em respirar. Talvez porque "A vida dos outros" te faça pensar em coisas únicas.
A única inspiração de um escritor.
A possibilidade irreal de um único amor.
As poucas ou únicas almas de caráter.
O livro que te mudou.
A história que você quis escrever.
A cena que passou correndo pela janela e que você não registrou.
A memória que só você tem.
O segredo que é seu.
A risada que você nunca explicou. O choro que guardou.
O seu melhor desempenho.
O maior orgulho. O que fez diferença, mas foi silencioso.
A única pessoa que te admira e você não conhece.
A pessoa que você acha que é única e é desprezível.
A maior dor, a melhor música.
Você, na melhor versão.
E, ao final, bem ao final, só para aqueles que têm paciência, descobre-se, além de tudo, que o filme (ou a sonata) de um homem bom foi feito para uma mulher.
Nas telas. Não percam. É único.

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