sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Contos do salão de beleza

Se os homens soubessem a riqueza antropológica contida num salão inventariam desculpas para acompanhar a mulher ou a amiga numa escova de chocolate ou encarariam uma depilação masculina sem freios ou temores.
E eu os aviso: trata-se de experiência inesquecível.
Mari, a depiladora, conta seu último assalto. Descia pelo Largo da Batata, cansadíssima, com o dinheiro do ônibus, o celular recém adquirido e quase nada na bolsa. O assaltante chega e exige dela o celular.
"Ah, não vou dar não. Nem pensar." Ele se assusta. Ela continua o falatório. "Acabei de comprar, está na terceira prestação, trabalho muito pra comprar minhas coisas. Não dou, não!"
O cara fica sem ação. Se conforma. Talvez entenda essa coisa de prestações. Manda ela ir andando. "Vou mesmo, e com meu celular."
Ela entra no ônibus, vai pra casa do namorado. De madrugada, acorda ao lado dele, em prantos. Conta do assalto. O namorado não acredita. Olha na bolsa, vê o celular. Diz que ela deve ter sonhado, e para voltar a dormir em paz.
A mulherada, já com as unhas pintadas, cabelos esvoaçantes, pele lisinha, ri da coragem da depiladora. E ela invoca com graça mais traumas antigos. "O primeiro bilau que eu vi foi de estuprador. Mas o pior é que não me traumatizou. Tô vendo bilau até hoje."
No reino da beleza, realidade e miséria andam sempre disfarçadas.

Nenhum comentário: