quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O sono

Eu me embalo fácil.
Durmo bêbada, durmo com sono, durmo ao luar.
As pílulas sempre as mantive distantes.
Me comoveram, em certa ocasião.
Tinha perdido o sentido do tempo. Do dia, da noite, do acordar.
Acordar para que tempo? Para que hoje?
Mandei então a esfera cor de rosa para dentro do corpo.
O efeito veio rápido. O torpor avassalou minha angústia.
Devo ter sonhado, não lembro.
A tarja preta ficou meses escondida na gaveta.
Pensei em usar nas muitas horas de dor.
Resisti, me mandaram consultar os astros, ou o ortomolecular.
Não tem búzios. Não tem zodíaco.
Recuso-me a assumir o prognóstico de minha limitação.
Segui fraca, sem bula.
Outro dia abri de novo a gaveta. Vencimento: abril de 2005.
Tive que caminhar. E, cansada, dormi.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Lúcia com Z?

Eu estava com eles e quando a gente está com eles não precisa inventar muita moda. Amigo te dá prazer por coisas simples. Decidimos que não faríamos nada, pegaríamos um filme na Blockbuster e passaríamos juntos uma linda noite de sábado. Temíamos uma verdadeira guerrilha retórica na loja até que um convencesse os outros dois sobre qual seria a película mais adequada. Inacreditavelmente os três concordaram com o filme, de imediato. Não bastasse isso, pegamos mais dois. Também em comum acordo.
Estava tudo perfeito demais. Mais ou menos. Fred tinha derrubado todos os kit do Batman na Americanas express e tentava arrumá-los. Ou seja, tudo piorava a cada momento. Achei que era hora de pagar, antes que a coisa se agravasse.
No caixa, o final catastrófico.
“Está no nome de quem?” Maria Lúcia, respondo prontamente. “Lúcia com Z?” Fico imóvel, penso, penso, não entendo, não olho em hipótese nenhuma para o Fred nem para a Gisa e respondo: Não, com C mesmo.
Escuto, ao longe, as risadas inconfundíveis dos dois. Já em casa, embolados em edredons no futon, não conseguimos eleger qual dos três filmes é o pior. Cochilos alternados, devidamente respeitados. E tudo termina docemente, como é a vida ao lado dos melhores amigos: “Gostou do filme, Luzia?”

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Aniversário

Meus pais e irmãos são sempre os primeiros a ligar (e aviso que eles são muitos, o que transforma a manhã numa profusão de sons).
A caixa de e-mail me surpreende com alguns amigos eternos, aqueles que você quase nunca vê _ e na verdade tem sérias dúvidas se os encontrará em carne e osso algum dia _, mas a existência deles na sua vida é realmente espiritual. E a cada ano que passa a coisa fica mais sofisticada, com bolos eletrônicos vindos pelo celular, cartões virtuais que cantam pra você, bonequinhos que batem palmas no MSN, uma homenagem via web cam. Tudo muito caloroso, muito tecnológico, e ninguém te deixa esquecer por nem um segundo daquelas 24 horas que é o seu aniversário.
Ainda que isso tudo me encha o coração para um dia que, na verdade, não terá nada de tão especial assim, passei os primeiros minutos da manhã imóvel, na cama, pensando na única doce lembrança que tenho sobre aniversários. Lá se foram 34 deles. Os primeiros podem ter sido até legais, ainda que eu não soubesse a diferença entre bolo e o peito da mamãe. Os últimos, sendo muito sincera, não foram lá a última coca-cola do deserto. Houve até os traumáticos _ ainda que tivesse 365 dias para escolher, uma irmã minha optou justo pelo dia 26 de outubro para se casar. Claro que ninguém se lembrou de mim. Mas alguns amigos que fazem aniversário em 25 de dezembro me consolaram, disseram que é assim mesmo, que a gente se acostuma a ser esquecido e trocado até por papai Noel.
Entre todos eles, porém, há somente um inesquecível. O do palhacinho vermelho com corpo de cartolina e pernas de papel crepom. Eu não sei bem se tinha 5 ou 6. Mas jamais se apagará da minha memória a cena: acordo, recebo beijos da mamãe, das irmãs e vejo, ali, em processo de gestação, o meu palhacinho. Ele me parecia um verdadeiro Hércules. A coisa mais encantadora do mundo. Sentado num balanço, devidamente pendurado, após uma difícil articulação, no teto da sala. Os meus aniversários de criança tinham sempre muita pompa e circunstância, mas o do Palhacinho....Havia uma produção em série. Minha mãe dividia a família em núcleos: o de enrolar brigadeiro, o de cortar os saquinhos das surpresinhas, o de selecionar as balas das surpresinhas, o de finalizar a produção da mesa do bolo e, o mais especial, de terminar o Palhacinho.
Eu não me lembro dos meus amigos do jardim de infância. Mas ainda sinto a dor, no dia seguinte ao aniversário, quando o Palhacinho teve que deixar a minha casa. Minha irmã explicou que ele iria alegrar outras festas. Eu não gostei. Anos depois acho que reencontramos o palhacinho, meio detonado, pernas de crepom pálidas. Novamente, me emocionei.
Aniversários são dias em que você celebra você. Ainda que diariamente eu sonhe em acordar e ver na minha frente aquele balanço colorido, percebo, neste novo aniversário, que tenho nas mãos o que me é mais precioso: a ternura da memória.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

As Marias de cada um

Dez da manhã, e nada de Maria. Nem me inquieto.
Aprendi, em dois anos, que é bombástica a combinação: chuva, São Paulo.
Ela chega agitada. Não dá justificativa inicial.
“Achei que esqueceu de mim”, comento.
Aí vem a ladainha normal dos aflitos: “Acordei às 5h30, achei melhor passar pela marginal para ir rápido, mas na entrada do Piraporinha já tava tudo parado.”
Sem nenhum traço de mau humor _ o que me parece incrível após uma jornada de mais de duas horas aos trancos e barrancos _, a minha Maria dá risada e continua: “E todo mundo dentro do ônibus telefonando para as patroas pra avisar do atraso. Eu me lembro que depois de trabalhar 20 anos na casa da Dona Ivonete sempre explicava os atrasos. Ela nunca acreditava. Agora nem explico mais.” Para ninguém, que fique bem claro, endossa a minha Maria.
De saída, comento que é dia de mega-sena. “E se eu ganhasse? Eu não podia voltar pra lá onde eu moro, né?” Explico que não. E que de preferência não deve contar a ninguém. “Podem roubar os meus filhos”, ela pensa em voz alta, já contabilizando uma numeralha que nunca terá na conta bancária. Sugiro que ela compre um apartamento na Vila Madalena. “Tá pensando o que, minha filha. Vou logo pra Alphaville!” Então tá certo. Já convencida de que perderia a minha rica Maria, ela solta mais uma: “E vou ter uma faxineira feroz. Com horário para entrar e para sair.”
Deixo a casa, sem nenhuma crença na mega-sena _ está claro que a vitória será de Maria _ e pensando na possibilidade de, um dia, trabalhar em Alphaville.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O sexto elemento ou las ninfas felizes

Eu passarinho diz: isso, isso

Eu passarinho diz:e tentar ser mais feliz

Vera, quase 35 diz: a tal da felicidade

Eu passarinho diz: existe? hahaha

Vera, quase 35 diz: sei lá, às vezes acho que é coisa de propaganda

Eu passarinho diz: eu acho

Vera, quase 35 diz: pra gente ficar buscando, comprando, consumindo

Eu passarinho diz: o povo ligado a Hitler que criou isso

Eu passarinho diz: tenho certeza

Vera, quase 35 diz: foi o duda mendonça

Eu passarinho diz: será que deus é dono das Casas Bahia?

Vera, quase 35 diz: ontem por exemplo gastei 1,2 mil em roupas. tive a nítida sensação de ter visto a tal felicidade passando

Eu passarinho diz: hahahahahaha

Vera, quase 35 diz: mas hoje sumiu

Eu passarinho diz: viu, duda mendonça!

Eu passarinho diz: é ele

Vera, quase 35 diz: cpi da felicidade já

Eu passarinho diz: ou deus disfarçado de duda

Eu passarinho diz: imediatamente, cpi

Eu passarinho diz: quem são os laranjas da felicidade?

Vera, quase 35 diz: hehehehehehehe

Eu passarinho diz: podemos escrever um conto

Eu passarinho diz: vou botar no blog

Vera, quase 35 diz:podemos

Eu passarinho diz: obaaaaaaaaaa

Vera, quase 35 diz: e colocar no chá com cinco

Vera, quase 35 diz: eu fico o sexto elemento

Eu passarinho diz: isso, isso

Vera, quase 35 diz: de penetra no chá

Eu passarinho diz: eeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee

Eu passarinho diz: mas o objetivo é sempre receber convidados

Vera, quase 35 diz: então vamos

Eu passarinho diz: agora?

Eu passarinho diz: o início da nossa conversa pode ser o abre do conto

Vera diz: ih... nem salvei

Eu passarinho diz: eu salvo agora

(Diálogo interrompido. Começa a parte impublicável). Somos exemplos puros, como diz Vera Regina, da lascívia criativa. Ela, agora, já com 35. Eu, com quase 34. Ainda em busca dessa tal felicidade.

Resignação e perfume

A prova irrefutável de meu estado de resignação foi assistir à queda do perfume favorito.
Poucas semanas de uso, frasco cheio. Espatifou-se.
Olhei para o espelho, pensei em chorar.
“É só um perfume”, insistia meu inconsciente.
“Será fútil uma cena de escândalo”, apunhalava-me a razão.
Madura, simplesmente resignei-me.
Limpa a sujeira, restou-me o cheiro difundido pelo banheiro e pela casa.
Cheiro que não há no corpo, mas permanece impregnado no catálogo mental.
Agora, todas as vezes que a cena me vem à cabeça tenho vontade de quebrar o espelho, por vingança.
Não quero outro frasco, por revanche.
Finjo incansavelmente que me basta o odor do corpo.
Se a resignação é prova de maturidade, traz junto novas sensações: grito contido, síncopes nervosas perigosamente contornadas e rancor fétido.
Gritem, mulheres infantis! Quebrem taças e espelhos, mas preservem seu perfume.
Esperneiem, mandem todos ao inferno.
E, depois de um delicioso chilique, comprem de novo, aí sim resignadas, dois frascos de perfume.

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A razão do nome das coisas

Era pra ser chá das cinco.
Disseram ser indisponível no momento e sugeriram "Chadas cinco.malucadel.2001."
Não somos odisséias soltas no espaço.
E a intenção é tomar chá.
Chá com.
Chá com quem eu amo e quero.
Chá no universo.com
Tomarei chá durante as tardes.
Com um quinteto especial _ eu incluída.
Ainda que me sirva sozinha de doses de camomila, cada uma num lugar do mundo acompanhará a delícia dos rituais.
Chá com cinco é isso: um ritual fraternal, histórias de cinco amigas como toalha de mesa, aberta a convidados. A raridade ímpar de sentar-se à mesa em horário nada habitual, lembrar-se do bolo da vovó _ que você não come mais, mas nunca se esqueceu.
Ou seja: falar do que realmente importa, nas horas certas.
Favor pegar senha às 16h45.

Composição



Deitada eu fico entre. Sentir e entregar.
Dormindo, com. O eu esticado na cama.

Café da manhã sem.

Almoço enquanto [há tempo].

Há horas em que a fome vem, porém.

Pela noite quero pronome.

Eu, ele. Contudo, quase.

Toda entrega é mas.