A prova irrefutável de meu estado de resignação foi assistir à queda do perfume favorito.
Poucas semanas de uso, frasco cheio. Espatifou-se.
Olhei para o espelho, pensei em chorar.
“É só um perfume”, insistia meu inconsciente.
“Será fútil uma cena de escândalo”, apunhalava-me a razão.
Madura, simplesmente resignei-me.
Limpa a sujeira, restou-me o cheiro difundido pelo banheiro e pela casa.
Cheiro que não há no corpo, mas permanece impregnado no catálogo mental.
Agora, todas as vezes que a cena me vem à cabeça tenho vontade de quebrar o espelho, por vingança.
Não quero outro frasco, por revanche.
Finjo incansavelmente que me basta o odor do corpo.
Se a resignação é prova de maturidade, traz junto novas sensações: grito contido, síncopes nervosas perigosamente contornadas e rancor fétido.
Gritem, mulheres infantis! Quebrem taças e espelhos, mas preservem seu perfume.
Esperneiem, mandem todos ao inferno.
E, depois de um delicioso chilique, comprem de novo, aí sim resignadas, dois frascos de perfume.
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