sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Aniversário

Meus pais e irmãos são sempre os primeiros a ligar (e aviso que eles são muitos, o que transforma a manhã numa profusão de sons).
A caixa de e-mail me surpreende com alguns amigos eternos, aqueles que você quase nunca vê _ e na verdade tem sérias dúvidas se os encontrará em carne e osso algum dia _, mas a existência deles na sua vida é realmente espiritual. E a cada ano que passa a coisa fica mais sofisticada, com bolos eletrônicos vindos pelo celular, cartões virtuais que cantam pra você, bonequinhos que batem palmas no MSN, uma homenagem via web cam. Tudo muito caloroso, muito tecnológico, e ninguém te deixa esquecer por nem um segundo daquelas 24 horas que é o seu aniversário.
Ainda que isso tudo me encha o coração para um dia que, na verdade, não terá nada de tão especial assim, passei os primeiros minutos da manhã imóvel, na cama, pensando na única doce lembrança que tenho sobre aniversários. Lá se foram 34 deles. Os primeiros podem ter sido até legais, ainda que eu não soubesse a diferença entre bolo e o peito da mamãe. Os últimos, sendo muito sincera, não foram lá a última coca-cola do deserto. Houve até os traumáticos _ ainda que tivesse 365 dias para escolher, uma irmã minha optou justo pelo dia 26 de outubro para se casar. Claro que ninguém se lembrou de mim. Mas alguns amigos que fazem aniversário em 25 de dezembro me consolaram, disseram que é assim mesmo, que a gente se acostuma a ser esquecido e trocado até por papai Noel.
Entre todos eles, porém, há somente um inesquecível. O do palhacinho vermelho com corpo de cartolina e pernas de papel crepom. Eu não sei bem se tinha 5 ou 6. Mas jamais se apagará da minha memória a cena: acordo, recebo beijos da mamãe, das irmãs e vejo, ali, em processo de gestação, o meu palhacinho. Ele me parecia um verdadeiro Hércules. A coisa mais encantadora do mundo. Sentado num balanço, devidamente pendurado, após uma difícil articulação, no teto da sala. Os meus aniversários de criança tinham sempre muita pompa e circunstância, mas o do Palhacinho....Havia uma produção em série. Minha mãe dividia a família em núcleos: o de enrolar brigadeiro, o de cortar os saquinhos das surpresinhas, o de selecionar as balas das surpresinhas, o de finalizar a produção da mesa do bolo e, o mais especial, de terminar o Palhacinho.
Eu não me lembro dos meus amigos do jardim de infância. Mas ainda sinto a dor, no dia seguinte ao aniversário, quando o Palhacinho teve que deixar a minha casa. Minha irmã explicou que ele iria alegrar outras festas. Eu não gostei. Anos depois acho que reencontramos o palhacinho, meio detonado, pernas de crepom pálidas. Novamente, me emocionei.
Aniversários são dias em que você celebra você. Ainda que diariamente eu sonhe em acordar e ver na minha frente aquele balanço colorido, percebo, neste novo aniversário, que tenho nas mãos o que me é mais precioso: a ternura da memória.

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