quinta-feira, 28 de maio de 2009

Barbie Girl

Meu objetivo com este post não é hipnotizar você e nem adianta tentar me processar só porque ao final deste texto você não vai se lembrar de outra música a não ser a Barbie Girl, do Aqua (eu tive que pesquisar algumas coisas sobre o Aqua, porque realmente é incrível que alguém tenha tido tempo para escrever uma idiotice como essa e mais assustador ainda que a música tenha virado um sucesso...) Portanto, se quiserem levar alguém à Corte Suprema, levem o Aqua.


Bem, vamos aos fatos.

Domigo de sol, e eu sou convidada por amigos para me divertir durante um picnic no parque. Sol, Londres, parque e picnic são combinações extremamente inspiradoras e reconfortantes. Aceitei o convite sem pestanejar, ainda que tivesse acordado com uma ressaca sem proporções.
Dia lindo, gramado lindo, gente alegre. Estou mesmo em Londres? Inacreditável. Os amigos felizes, muita comida. A toalha é uma canga com a bandeira do Brasil e, coincidentemente, eu percebo que todos os brasileiros ao redor usam a mesma canga, com a bandeira do Brasil, para celebrar o domingo ensolarado. Estabelecemos de imediato uma conexão cosmológica em torno da canga. Brasileiros são mesmo incríveis.
Entre os amigos está um casal cuja filhinha, maravilhosa e esplêndida, é bilíngue. Ela mistura com uma naturalidade invejável o português e o inglês e assim vamos nos comunicando, ora com um idioma, ora com outro.
Encantada pela graça da garota, tento me aproximar. A fórmula da sedução é perguntar onde fica o castelo dela (já que algumas horas antes ela tinha nos avisado que era uma Princess). Animada, ela me dá a mão e vamos procurar o "castle" no parque. O "castle" é uma árvore enorme, e ficamos lá debaixo, imaginando as janelas, as portas, os cômodos. Quando eu me canso de tanta imaginação ela me manda sentar na grama e ficar lá quieta. E eu pergunto: por que? Ela: "Porque aqui é o nosso castelo, e você mora aqui comigo". Ah, tá.
Conversa vai, conversa vem, e de repente eu também sou princesa.
Para aumentar o nosso grau de cumplicidade, afinal princesas precisam trocar idéias sobre o mundo, eu pergunto quem é a princesa favorita dela.
- Barbie Girl.
- Barbie Girl? Mas não tem conto de fadas sobre Barbie Girl.
- Yes, but there is the song, and the song is the story.
E ela começa a cantar.

I'm a Barbie girl in the Barbie world
Life in plastic, it's fantastic
You can brush my hair, undress me everywhere
Imagination, life is your creation


TODOS ao redor me olham. Talvez me culpem por ter estimulado a criança a cantar Barbie Girl. Eu digo, constrangida, que gosto da Barbie Girl. O que eu ia dizer? É a pricesa favorita dela, come on...

- Meu pai não gosta da Barbie Girl.

Ups. Já começo a entender que tenho um problema sério à vista. Deixamos o nosso castelo, e ela ainda cantando a Barbie Girl' song.

- Papai, minha amiga gosta da Barbie Girl.

Nem preciso descrever a cara e o olhar do pai. Percebo de imediato a minha mancada. Claro que eu deveria ter dito a ela que a Barbie Girl não é tão legal assim. Dá pra imaginar aquele pobre cristão, o pai, escutando Barbie Girl todo santo dia? Eu olho para ele com uma cara de arrependimento enorme, e imploro por perdão.

- Eh, mas o papai não acha ela muito legal.

Eu tento mudar de assunto, mas ela está obcecada por princesas, castelos, canções. Voltamos ao nosso castelo. E a Barbie Girl ainda está nas paradas de sucesso. Começo a refletir sobre a música.
Como alguém pode achar que "Life in Plastic is Fantastic"?
Sério. Como eu pude dizer a ela que eu gosto de Barbie Girl? Onde eu estava com a cabeça?
E por que, meu deus, essa música não sai da minha mente?

Depois de algum tempo pegamos algumas "flowers", tento mudar de assunto para que os pais dela possam me perdoar pelo fato de eu ter feito uma apologia irresponsável à Barbie Girl. Acho que a coisa fica bem, ao final. Preciso ir embora. Me despeço, ela diz que vai me chamar para a gente ir ao cinema. Começo a tremer: será que ela vai me chamar para ver Barbie Girl? Enfim...

Vou caminhando, e, de repente, vejo que estou cantarolando o que? Barbie Girl.
Chego em casa e vou checar a letra. Não pode ser tão ruim assim.
Mas é. É bem pior que eu imaginava.
A voz do Ken é algo inexplicável.
E como o Ken pode, numa música assim, tirar e colocar a roupa da Barbie como ele bem entende? "Kiss me here, touch me there, hanky-panky"... Ah, tá de brincadeira...

Penso em telefonar para os amigos e pedir desculpas de novo. Na verdade, planejo um abaixo-assinado de pais revoltados contra o Aqua. Já imagino uma grande mobilização de pais no parque contra a Barbie Girl. Uma ONG. Gente, como isso tocou nas rádios? Sério, isso é uma agressão ao menor. E ao maior. E à terceira idade.
Bem, como o Aqua gravou isso em 1997 acho que em breve ninguém vai se lembrar da Barbie Girl em 2010 (mas é arriscado, porque estamos em 2009 e uma criança elegeu a Barbie Girl como princesa favorita).
Deixo a indignação de lado, preparo meu chá e me organizo para dormir. Enquanto estou na cozinha conto a história (triste) para as minhas flatmates. Vou dormir.
Da cama, escuto alguém cantarolando:

Come on, Barbie, let's go party, ha ha ha, yeah
Come on, Barbie, let's go party, oooh, oooh
Come on, Barbie, let's go party, ha ha ha, yeah
Come on, Barbie, let's go party, oooh, oooh


Só posso estar tendo um pesadelo.
Melhor procurar meu "castle" e me esconder no parque.

p.s - Eu avisei. Processem o Aqua. Ou o Ken, esse tarado.

4 comentários:

Vera disse...

Barbie Ninfa

Duas coisas:
1) Barbie Girl é uma paródia, uma tiração de sarro. Na verdade, se fosse encarada sociologicamente, podia até ser uma crítica à ''vida de plástico'', aos relacionamentos efêmeros blablablá. Só é estranho que a menininha conheça.
2) Barbies princesas é outra coisa. Um pooooorre. E existem em várias versões: Barbie Polegarzinha, Barbie Rapunzel, Barbie e o castelo de Diamantes, Barbie a Princesa e a Plebeia.
A Helô ama. E a Dinda aqui tenta dizer que não é tão legal assim, mas não adianta nada.

malu disse...

Ninfa mãe,

só vc pra ser tão professoral sobre a Barbie Girl!!! Acho que com 35 eu consigo entender a estúpida tentativa de "paródia"...e fazer troça com a sociologia do Aqua. Já uma menina de quatro anos... saudades, amiga.

Renato Roschel disse...

Olá Malu, aqui quem escreve é o pai da menina que canta Barbie Girl. Gostei do seu texto. Na verdade, nosso problema, lá no fundo, é o mesmo que o seu. Nós detestamos a música e por um infeliz deslize da vida deixamos que ela um dia entrasse para o repertório de nossa filhinha. O resto você já sabe: a desgraçada ficou na cabeça da menina como se fosse um vírus, uma praga. É uma espécie de gripe suína musical. Estamos tentando desintoxicá-la com outras composições, o problema é que pra matar uma coisa ruim dessas o remédio carece, muita vez, de ser amargo toda vida. Daí que agora ela só esquece a danada quando aprender a cantar "Vou de Táxi", da Angélica... ou então "Ado Ado Ado, cada um no seu quadrado"...

malu disse...

Eu voto no "Ado, Ado, Ado, cada um no seu quadrado"... Imagino como deve ser complicado filtrar essas coisas. Na verdade, é missão quase impossível. O importante é que ela vai ser sempre uma princesa. Dessas de verdade.