Nada pode ser mais interessante para um estudante pobre que um supermercado popular. Eu posso fazer loucuras no Morrinson's com poucos pounds. É realmente incrível. Sendo assim, fazer compras no supermercado é um dos meus programas favoritos em Londres (olhem, eu adoro fazer compras em supermercados no Brasil as well, so, take it easy).
Você acaba criando uma relação muito simbiótica com o supermercado da esquina. Ele vira o seu provedor. Are you going to Morrinson's talvez seja a pergunta mais corriqueira entre mim e meus flatmates. Ir ao Morrinson's é como ir à missa aos domingos. É como picnic em dia de sol. É igual a roubar sorvete na geladeira escondido da mãe. Ou seja, é um misto de sagrado e profano, sem o qual você não pode viver.
Sábado à noite, eu deprimida... "Vou a Morrinson's", reajo imediatamente. E vou, feliz da vida, imaginando quão divertida é a minha estadia em Londres, sendo que eu posso ir ao Morrinson's numa noite de sábado, e isso não é pouca coisa. Não para quem conhece o Morrinson's.
Faço minhas compras, encontro fantásticas promoções, compro meu vinho para beber sozinha à noite, pesquiso marcas e produtos inacreditáveis (a cada dia eles inventam um novo aparelho para cozinhar ovo ou fazer ovo poché, por exemplo). Pronto. Diversão garantida.
Dirijo-me ao caixa e, claro, procuro a minha querida Omara Portuondo. A minha Omara, cashier do Morrinson's, usa uns óculos gigantescos (eu juro que já vi a Omara ao lado do Ibrahim Ferrer em alguma capa de CD com uns óculos gigantes, mas uma amiga minha disse que a cubana nunca usou óculos, muito menos de grandes proporções) e tem um humor invejável.
Depois da minha terrível experiência no Tesco (o concorrente do Morrinson's) por alguns meses, eu achava que nunca conseguiria estabelecer uma comunicação com os cashiers em Londres, já que o inglês paquistanês deles é algo absolutamente incompreensível e o semblante está longe de ser amigável. Bullshit. No Morrinson's o diálogo é garantido. Sobretudo se for no caixa da Omara.
Meio gordinha, pele corada, óculos literalmente gigantescos, lenços na cabeça, a Omara se diverte com o que faz. "Oh my god, where did you find these bananas? The price is amusing, isn't it?". "Hi, darling... Oh my god, I love this yogurt as well. It is my favourite. Have you tried the halzenut's one?" "It's a lovely night. Are you going out tonight?" "Do you wanna cash back, my dear?"
A Omara se preocupa com a gente. Quer dar dicas sobre os produtos, dividir com você aquele momento único de estar no Morrinson's às dez da noite de um sábado. Ela quer que você tenha a certeza de que está fazendo um bom negócio, não só para o bolso, mas sobretudo para a saúde. Ela não é um produto do marketing. O dono do Morrinson's provavelmente nunca conversou com a Omara e não tem a menor noção de como ela é a sua melhor campanha publicitária.
E, além de tudo, você olha para a cara dela e tem vontade de sair bailando pelo supermercado, de chamar correndo o Wim Wenders e perguntar para ele, com toda franqueza: "Escuta aqui, meu caro, por que o Buena Vista não foi filmado no Morrinson's?
Volto para a casa cantando "De Alto Cedro voy para Marcané, Llego a Cueto, voy para Mayarí". Tomo uma taça de vinho. Penso em tomar o iogurte que a Omara gosta. Acho melhor ficar só no vinho (combina mais com o sábado, a Omara vai entender). Penso em voltar ao Morrinson's e convidar a Omara para tomarmos uns Mojitos num cubano lá em Angel. Mas Chan Chan já está tocando nos salões da minha imaginária noite de sábado, e decido esperar pela próxima compra. Claro que no Morrinson's.
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3 comentários:
Muito bom seu blog, de certa forma, esses exílios nossos säo parecidos... beijos!
(Tá vendo, um comentário que näo é sobre Vinícius...)
que amor, a Omara...
da próxima vez manda um beijo meu pra ela?
:):)
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