terça-feira, 19 de maio de 2009

Tittle in English: Linguistic Dilemma Tittle in Portuguese: "Na Onde?"

O jet lag espiritual não dura muito no Brasil. Inevitavelmente você vai presenciar alguma cena que te mostrará com absoluta lucidez onde você está.
A minha foi no ônibus Guarulhos-São Paulo, rota Hotéis/Paulista. Meu estado de espírito continuava confuso, eu pensava em como seria complicado voltar para Londres sem dinheiro, sem saber direito o que eu quero fazer da vida, deixando meu amor de novo abandonado ali pertinho do Largo da Batata. Além do jet lag espiritual _ que não saía do meu corpo desde que eu tinha chegado ao Brasil no início de abril _, o cérebro estava prejudicado por genuínas questões aéreas (que contaram com a generosa colaboração da TAM), listadas abaixo:

a) um vôo às 6h da manhã;

b) um vôo INTERNACIONAL às 6h da manhã, informação cuidadosamente omitida do cliente quando ele compra o bilhete online;

c) pânico na fila de embarque por causa da regrinha dos 100 ml (aqui vamos ter um longo parênteses: quem foi o GÊNIO que inventou a regra dos 100 ml? Ele poderia fazer a gentileza de CONVERSAR com a indústria de cosméticos e pedir que parem de fabricar potinhos de 125ml, 110 ml, 120 ml, 175 ml???? Hãaaaaaaaaaaaa?)

d) ameaça de morte (eu versus a simpática atendente da TAM) por causa dos saquinhos de plástico para colocar a m. dos vidrinhos que têm MENOS de 100 ml - ou seja, praticamente só sobra o colírio Moura Brasil, sendo que quase todo o resto você é obrigado a jogar naquele lixinho que fica na sala de embarque _ by the way, QUEM É QUE FICA COM TODOS OS VIDRINHOS DE PERFUME, CREMES, PROTETOR SOLAR, ESFOLIANTE, DEMAQUILANTE, LUBRIFICANTE E AFINS QUE SÃO ATIRADOS COMPULSORIAMENTE NAQUELE LIXO DA LUXÚRIA ANTERIOR À SALA DE EMBARQUE?????

e) gritos, indignação, e a perda de um fabuloso (E CHEIOOOOOOOO) protetor solar da Natura.

Considerando os fatos relatados acima, é fácil imaginar a gravidade do meu jet lag espiritual. E cheguei em Guarulhos. Gostoso!!!!!! Alternativa: ônibus rota Hotéis/Paulista. E eu vou, assim, detonada, sonâmbula, indignada pela perda do meu protetor solar, preocupada em como depois de alguns dias em Sampa seria a vida em London....

E eis que de repente o auxiliar do motorista (ônibus executivo que se preza tem que ter auxiliar de motorista), de uniforme branco e vermelho, gravatinha, com caneta e caderninho na mão, muito educado, me pergunta, com excesso de zelo:

- A senhora vai descer "na onde"?

- Hã?, pergunto, achando que tinha entendido errado, que o jet lag estava me fazendo misturar sílabas indevidamente.

_ Na onde?, ele insiste.

- Metrô Consolação, respondo desolada.

_ "Na onde"?, ele reitera o mantra linguístico dirigindo-se desta vez à passageira atrás de mim, uma espanhola, que sem pestanejar responde que desceria num hotel na Paulista, pois alguém iria dali levá-la a outro hotel.

_ Hotel a hotelllllllllll?, ele pergunta de novo, desta vez com entonação em espanhol. E troca mais algumas palavras em "espanhol" com a passageira.

Eu me contenho, afinal o auxiliar de motorista tem tanta convicção sobre sua abordagem que não seria humano constranger o moço por conta de um simples dilema linguístico.

Eu desço no metrô Consolação. E me pergunto, ensimesmada no meu jet lag, "na onde" é que estou indo...