sábado, 24 de novembro de 2007

Sampa, Rio e outras galáxias

Há certas inconveniências em todo lugar do mundo.
Ao escapar de umas, outras me atropelam.
A ponte aérea é um caos? Vá de ônibus.
Mas a rodoviária é a visão do inferno. Vá de madrugada.
Mas e se ao seu lado se assenta um fanho com tique nervoso, que durante o diálogo interminável com a avó bate a garrafinha de água mineral na mala?
Mude de lugar.
É madrugada, ninguém mais está se acotovelando no corredor com mais de 80 platarfomas. Sim, sim.
E lá no fundo, outro banquinho, tranqüilo e cobiçado. Dois lugares. Um é seu. Perfeito. E o outro, do menino que come vorazmente sanduíche com bacon, às duas da manhã.
Tudo passa, os vôos, os ônibus, as horas, o caos, a indigestão provocada por bacon.
Você chega ao Rio. Rio, entendeu?
Hahã. Tempo nublado, chuvinha entojada e... anomia.
Melhor pagar o táxi pré-fixado. Parece mais honesto.
Tudo caminha como deve ser a humanidade (no Rio).
Em um segundo, a guarda municipal barra a passagem.
Vinte taxistas gritam e tentam atacar os fiscais.
Os fiscais pedem propina.
Os irregulares começam a rondar o local para tirar uma casquinha dos passageiros.
Os cariocas assistem a tudo com complacência.
A sarada da fila me faz tirar da cabeça a idéia de pegar um táxi do lado de fora.
"Caraca, meu noivo foi assaltado com AR-15 na semana passada."
Do mesmo jeito que a babel se cria, se desmonta em segundos.
Taxistas voltam felizes aos automóveis.
Chego em Humaitá, com direito a aula sobre o cartel do transporte no trajeto.
Aula não aplicável no metrô paulistano, cinco da matina, caminho da Sé.
Gente triste, cansada, sem aquele sol nublado do Rio.
Entre a aflição da metrópole e a malandragem do paraíso, sonho com uma outra galáxia.

domingo, 11 de novembro de 2007

Receita de avião

“Uma vez, eu fiz um avião que só eu tinha a receita.”
A mãe o olha com espanto peculiar, sem intimidá-lo no raciocínio.
Eu sigo do outro lado da rua pensando no meu avião.
500 gr de temperamento forte.
Um litro de whisky.
Uma garrafa de água.
4 colheres de raiva (para decolar).
Liberdade fresca (à vontade, não pode ser de caixinha).
Uma pitada de rancor (para aterrissar).
Misture tudo. Reserve.
Ponha o fermento (usar a marca preferida).
Espere crescer por quatro horas.
Acrescentar uma xícara de açúcar (para pousos).
Flambar tudo em gotas de ousadia.
Servir quente.
Porção individual.
Pode também servir dois.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Antonio, o passarinho

Já vi muitas coisas inusitadas no meu próprio lar: a forma como jogo as roupas pelo chão, coleção de peças íntimas no banheiro (mesmo em dia de visita), pilhas de jornais inúteis (os novos e os velhos), estranhos artesanatos, vidro vazio, sopa de saquinho vencida, pêlo de gato em almofada, filtro de café sem pó, fruteira sem banana, ímã de geladeira em formato de baleia, vestidos absolutamente fora de moda pendurados em cabides, livros sem estante, fio solto, telefone quebrado, colher de pau rachada, acúmulo de potinhos de plástico. Tudo muito esquisito.
Mas nada como encontrar filhote de passarinho encurralado piando debaixo do chuveiro.
Madrugada, cansaço e... passarinho...
O deixo no abrigo escolhido ao acaso ou o devolvo ao cruel mundo da natureza que seleciona as espécies? Preciso removê-lo. Ficar significa morrer: "cadê o passarinho, o gato comeu".
O conduzo ao jardim. Grama molhada. Choveu.
Acordo pensando nele. Sobrevivera num dia tão frio?
Saio cedo. Ainda chove. Alguém canta baixinho lá do pé de maracujá.
Pergunto: "Passarinho me conta então me diz
Por que que eu também não fui feliz
Cadê meu amor minha canção
Que me alegrava o coração
Que me alegrava o coração
Que iluminava o coração
Que iluminava a escuridão"
Hora de batizado, nome certeiro: Antonio.
Mora, alegre e feliz, no meu jardim.

sábado, 3 de novembro de 2007

Entre uma mamada e outra (para Lu e Bel)

Ainda não a conheço. Imagino.
Assim: um dia, cabelos encaracolados, olhos castanhos bem escuros, cara sapeca e perspicácia incomum, vai estar no meio da sala, com copinho de tequila (ou vinho), sentada no colo de uma das tias, no horário do chá. Como é a mais velha no clã da segunda geração (ainda não sabemos quem mais virá), ditará as regras.
Um dia, vai nos contar de novos amores, enquanto nós cinco lamentamos todos os que deixamos passar e comemoramos os que ficaram para valer. Ou que não vieram, ou que nunca foram.
Um dia, estaremos juntas numa grande celebração.
Um dia, vamos todas ao parque, andar de carrinho bate-bate.
Vamos jogar truco, ver todas juntas álbuns de retrato (faculdade, casamentos _feitos e desfeitos_, batizados, bodas, 15 anos).
Faremos um jantar.
Vamos encarar uma balada. Inevitável.
Show. Teatro.
Chá com seis, sete, oito.
Ela veio para nos mostrar o que ainda vai chegar.
Seja bem-vinda, abra a porta.
É também sua essa casa.

Condição humana e condições para bobagens ou o poema do Nunca-Quase

Tristeza não revelada incomoda mais que dor escancarada.
Tem olhar molhado, riso disfarçado. Tenta enganar, mas se fitada é descoberta.
E tristeza triste fica represada, sem vontade de gritar.
Grite pra mim, homem triste.
Limpe o olhar, abandone esse riso falso e deixe a verdade chorar.
Jogue fora parte da biblioteca e escute os meus casos bobos que te fazem rir.
Dê ritmo novo ao turbilhão de pensamentos.
Saia na chuva, porque é dela que você gosta.
E assim, corpo molhado _ e não o olhar _, venha pra mim,
Porque eu espero o sentido, eu espero as horas, entro na sua biblioteca. Pego o jornal desfeito por chuva, caminho até a padaria, tomo o vinho, o pão, chupo as balas de erva.
Entro até na igreja. Rezo. Porque eu espero o sentido.
Eu te espero, como nunca quase o mundo me engolisse.
Uma situação tola, uma tola condição humana,
E, humana, a nossa condição para bobagens.