segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Antonio, o passarinho

Já vi muitas coisas inusitadas no meu próprio lar: a forma como jogo as roupas pelo chão, coleção de peças íntimas no banheiro (mesmo em dia de visita), pilhas de jornais inúteis (os novos e os velhos), estranhos artesanatos, vidro vazio, sopa de saquinho vencida, pêlo de gato em almofada, filtro de café sem pó, fruteira sem banana, ímã de geladeira em formato de baleia, vestidos absolutamente fora de moda pendurados em cabides, livros sem estante, fio solto, telefone quebrado, colher de pau rachada, acúmulo de potinhos de plástico. Tudo muito esquisito.
Mas nada como encontrar filhote de passarinho encurralado piando debaixo do chuveiro.
Madrugada, cansaço e... passarinho...
O deixo no abrigo escolhido ao acaso ou o devolvo ao cruel mundo da natureza que seleciona as espécies? Preciso removê-lo. Ficar significa morrer: "cadê o passarinho, o gato comeu".
O conduzo ao jardim. Grama molhada. Choveu.
Acordo pensando nele. Sobrevivera num dia tão frio?
Saio cedo. Ainda chove. Alguém canta baixinho lá do pé de maracujá.
Pergunto: "Passarinho me conta então me diz
Por que que eu também não fui feliz
Cadê meu amor minha canção
Que me alegrava o coração
Que me alegrava o coração
Que iluminava o coração
Que iluminava a escuridão"
Hora de batizado, nome certeiro: Antonio.
Mora, alegre e feliz, no meu jardim.

Um comentário:

blog do antonio prata disse...

Malu, gostei de saber que seu passarinho tem o meu nome. Nem ouse deixá-lo à mingua ou à lingua do primeiro gato que passar, heim? Adorei seus textos. Parabéns.