Sempre me senti hipnotizada por crianças, mas certamente há uma sensibilidade especial em meu útero e uma vontade genuína de ser mãe que me fazem desconectar do resto do mundo quando essas pequenas criaturinhas atravessam minha rotina. Penso que conectar a minha vida de adulta com a mente dos pequenos me faz entender o que estou fazendo aqui.
"Mom, it is really dangerous to stand up, isn't it?"
Yes, it is. E a mãe lhe explica que ficar em pé no ônibus não é uma boa idéia porque o motorista pode frear bruscamente e ele vai bater a cabeça no vidro e se machucar muitoooooooooooooooo...
"And it hurts." Yes, it hurts. A mãe é tão clara que ele nem se atreve. Mas claro que é preciso encontrar alguma novidade no ônibus. Lentamente, ele se ajoelha no assento e gira o corpo em direção ao banco detrás. Olha o jovem casal silencioso e se enche de coragem: "Uaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhh". Os gestos, a cara e a entonação do rugido me fazem ter a certeza de que ele havia imitado um leão. A mãe segura o riso. Eu idem.
O casal não se mexe. Nem a mãe. Ele se desencanta. Senta-se novamente.
"It is dangerous to move, isn't it, Mom?" Brava, ela encara seriamente o bravo leãozinho, que já sabe a resposta. Ele espera alguns minutos, deixa a mãe se distrair, mas vira de novo rapidamente para o casal e solta um novo e violento urro. Eu não me aguento. Me derreto de rir no assento ao lado, impressionada com a insensibilidade do jovem casal diante do rei da selva. Mas, claro, tenho medo de encarar a mãe.
*****
Se bravos são os filhos, guerreiras são as mães. Conecto o episódio no ônibus com o texto que recentemente havia lido sobre Las Madres de la Plaza de Mayo, que enfrentaram a ditadura militar na Argentina na década de 80 em busca de seus leões desaparecidos. Mães são capazes de tudo pelas crias. São a única prova do amor incondicional.
*****
Hoje, no metrô, a curiosidade infantil volta a me perseguir. "Do we always mind the gap?" Oh, yes, always. Quem responde desta vez é a vovó. Com as perninhas balançando no ar, sapatinhos mocassim pretos, gorrinho combinando com cachecol, ele observa tudo e acha um tanto exagerada a repetição britânica dos "Mind the Gap" em toda estação. Vira (será que todos eles sempre se viram, repentinamente???), fica em pé no assento e se depara com o cartaz no vidro: "Please keep feet off the seat". A vovó lê bem alto o cartaz. Envergonhado, ele vai descendo, lentamente, e fica novamente sentado, como quem não quer nada.
"Mind the gap", repete de novo o motorista na próxima estação.
"Mind the gap, mind the gap; there are always gaps", reflete o pequenino, falando baixinho para si mesmo, e arrancando gargalhadas deliciosas da vovó.
domingo, 22 de fevereiro de 2009
terça-feira, 17 de fevereiro de 2009
Library
Talvez seja a falta de sol, cerveja gelada e peixinho frito.
Talvez seja algum hormônio que se ativa nos dias cinzas.
Falta de coxinha? Guaraná Antárctica?
Falta de coragem de não fazer nada?
Necessidade de achar que você de fato faz alguma coisa?
Enfim, seja a razão gastronômica, filosófica, cultural ou ambiental, o fato é que a obsessão do estudante inglês por biblioteca é realmente um fenômeno científico. E pior: contagiante.
Nos dias em que eu resolvo estudar em casa _ auto-afirmando que tudo na vida é uma questão de disciplina, que eu sou uma mulher madura e uma estudante auto-centrada _, o meu inconsciente grita freneticamente: vá imediatamente para a biblioteca! Mas não, eu não vou. Uma paradinha para o chá, outra para o café, outra para ver emails, outra para ler novos blogs recém-descobertos, um amigo no skype aqui, uma irmã no messenger acolá. Não rende. Simplesmente. É um dia inteiro para ler um ou dois artigos em inglês.
Já na biblioteca.... A coisa é frutífera. Organizo textos, penso, seleciono livros e mais livros, leio quatro artigos. É batata! Ou melhor: é científico.
Se fosse Einstein, a fórmula seria assim: e.c = (m.t.p)2 /4
Traduzindo: estudar em casa é igual a: muito tempo perdido ao quadrado, divido pelos quatro artigos ou quatro capítulos de livro que você não vai ler.
Como tudo na vida, você precisa passar pela experiência para entender.
Bibliotecas têm algo mágico.
Primeiro que elas, aqui, têm aquela aura de "O Nome da Rosa". Outro dia me perdi na Senate House Library e entrei num labirinto com cheiro de arsenico, livros de capa dura formato A2 (sei lá se é A2, A5 ou A3, mas é bem maior que A4). Era o setor de teologia. Claro que entre os padres anglicanos eu vi o Sean Connery.
Na biblioteca você tem devaneios criativos, cinematográficos.
Você tem uma opressão sufocante. Literalmente. Está encurralada no meio de milhares de livros. Freud, Aristóteles, Marx, Gramsci, Lacan, Foucault, Hobbes, Weber, Hegel estão todos ali, vigiando que tipo de contrato social você vai inventar para o seu inconsciente e qual antítese será invocada para explicar, democraticamente, a síntese do seu vazio intelectual caso você, simplesmente, não estude. Ou seja, você não tem saída.
Quando você entra na biblioteca, todos te olham. Mas é um olhar suave, do tipo que Hitler daria se fosse uma velhinha bondosa que mora no alto da colina. Mas ela continua sendo Hitler.
Você checa sua lista de livros. Pega o que precisa. Senta-se. Começa. Há um relógio à sua frente. Você terá quatro, cinco horas. O tempo passa. Mas passa com qualidade. Você não pode desviar sua atenção. Não pode comer. Não pode atender telefone. Não pode falar, basicamente. Sabe aquela coisa de "você e sua consciência"? Pois é. Existe. Ali na biblioteca.
Você só ouve a respiração dos que estão a seu lado estudando. Cria uma competição imaginária.
Quando está exausto, pensa no café. Mas o campo visual a seu redor te detém: se você passar quinze minutos tomando café, eles, os seus concorrentes intelectuais (mesmo que imaginários), vão ler três capítulos a mais que você.
Você quer ir ao banheiro. Não. Weber nunca fez xixi. Sossegue.
Você tem vontade de comer chocolate. Não. Hegel devia ser esquálido.
Você pensa nos emails. Pare. Aristóteles escrevia em pergaminho.
E assim as horas passam, o intelecto te alimenta.
Toca a sirene. Todos se levantam das suas cadeiras, chateados.
O templo se fecha.
Eu saio dali exultante, orgulhosa. Cumpri meu dever de estudante.
Vou para a casa pensando no marxismo ecológico, nas respostas ineficazes para a globalização, na falência da construção do Estado na América Latina, na necessidade de revisitar a teoria da democracia.
Mas meu pensamento mais forte mesmo é o da cerveja gelada na praia.
De preferência com o Sean Connery.
Talvez seja algum hormônio que se ativa nos dias cinzas.
Falta de coxinha? Guaraná Antárctica?
Falta de coragem de não fazer nada?
Necessidade de achar que você de fato faz alguma coisa?
Enfim, seja a razão gastronômica, filosófica, cultural ou ambiental, o fato é que a obsessão do estudante inglês por biblioteca é realmente um fenômeno científico. E pior: contagiante.
Nos dias em que eu resolvo estudar em casa _ auto-afirmando que tudo na vida é uma questão de disciplina, que eu sou uma mulher madura e uma estudante auto-centrada _, o meu inconsciente grita freneticamente: vá imediatamente para a biblioteca! Mas não, eu não vou. Uma paradinha para o chá, outra para o café, outra para ver emails, outra para ler novos blogs recém-descobertos, um amigo no skype aqui, uma irmã no messenger acolá. Não rende. Simplesmente. É um dia inteiro para ler um ou dois artigos em inglês.
Já na biblioteca.... A coisa é frutífera. Organizo textos, penso, seleciono livros e mais livros, leio quatro artigos. É batata! Ou melhor: é científico.
Se fosse Einstein, a fórmula seria assim: e.c = (m.t.p)2 /4
Traduzindo: estudar em casa é igual a: muito tempo perdido ao quadrado, divido pelos quatro artigos ou quatro capítulos de livro que você não vai ler.
Como tudo na vida, você precisa passar pela experiência para entender.
Bibliotecas têm algo mágico.
Primeiro que elas, aqui, têm aquela aura de "O Nome da Rosa". Outro dia me perdi na Senate House Library e entrei num labirinto com cheiro de arsenico, livros de capa dura formato A2 (sei lá se é A2, A5 ou A3, mas é bem maior que A4). Era o setor de teologia. Claro que entre os padres anglicanos eu vi o Sean Connery.
Na biblioteca você tem devaneios criativos, cinematográficos.
Você tem uma opressão sufocante. Literalmente. Está encurralada no meio de milhares de livros. Freud, Aristóteles, Marx, Gramsci, Lacan, Foucault, Hobbes, Weber, Hegel estão todos ali, vigiando que tipo de contrato social você vai inventar para o seu inconsciente e qual antítese será invocada para explicar, democraticamente, a síntese do seu vazio intelectual caso você, simplesmente, não estude. Ou seja, você não tem saída.
Quando você entra na biblioteca, todos te olham. Mas é um olhar suave, do tipo que Hitler daria se fosse uma velhinha bondosa que mora no alto da colina. Mas ela continua sendo Hitler.
Você checa sua lista de livros. Pega o que precisa. Senta-se. Começa. Há um relógio à sua frente. Você terá quatro, cinco horas. O tempo passa. Mas passa com qualidade. Você não pode desviar sua atenção. Não pode comer. Não pode atender telefone. Não pode falar, basicamente. Sabe aquela coisa de "você e sua consciência"? Pois é. Existe. Ali na biblioteca.
Você só ouve a respiração dos que estão a seu lado estudando. Cria uma competição imaginária.
Quando está exausto, pensa no café. Mas o campo visual a seu redor te detém: se você passar quinze minutos tomando café, eles, os seus concorrentes intelectuais (mesmo que imaginários), vão ler três capítulos a mais que você.
Você quer ir ao banheiro. Não. Weber nunca fez xixi. Sossegue.
Você tem vontade de comer chocolate. Não. Hegel devia ser esquálido.
Você pensa nos emails. Pare. Aristóteles escrevia em pergaminho.
E assim as horas passam, o intelecto te alimenta.
Toca a sirene. Todos se levantam das suas cadeiras, chateados.
O templo se fecha.
Eu saio dali exultante, orgulhosa. Cumpri meu dever de estudante.
Vou para a casa pensando no marxismo ecológico, nas respostas ineficazes para a globalização, na falência da construção do Estado na América Latina, na necessidade de revisitar a teoria da democracia.
Mas meu pensamento mais forte mesmo é o da cerveja gelada na praia.
De preferência com o Sean Connery.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Bonne année!!!
Eu tinha que começar de novo.
Confesso que depois do Natal na Alemanha, Ano Novo na França, despedida de namorado em Londres, me deu uma preguiça de começar este ano.
É ruim a sensação de estar, mas não estar em lugar nenhum.
Ou de estar num lugar onde tudo, sempre, é temporário.
Passei duas semanas na Alemanha tentando aprender a falar Feliz Natal. Claro que o 'Frohe Weihnachten' não saiu, digamos assim, perfeito. Mas meio bêbada, depois de ter encarado a Oma _ que chamou minha sobremesa maravilhosa de Leka, Leka, Leka (e que fique bem claro que Leka não é geleca nem meleca) _, e de ter dado abraços e beijos no casal alemão que passou horas conversando comigo sem que eu fosse capaz de dizer UMA frase no idioma deles, dizer 'Frohe Weihnachten' foi fichinha.
O complicado mesmo é pronunciar Entshuldigen.
Meu namorado já tinha desistido da minha capacidade linguística, sobretudo depois de perceber os sons mirabolantes que eu tentava emitir para dizer um simples "Dank". Demorou, e apesar do ceticismo extremo dos meus entes queridos eu consigo sim, senhoras e senhores, falar Entshuldigen! Sinceramente, acho que vai ser a única palavra que eu vou aprender nesta vida do idioma. E como foi sofrido...
Imagine você, andando pela rua, de repente dá uma simples trombadinha na pessoa e, apressadamente, tem que soltar essa: Entshuldigen!. Por que não dizer: hein, dein, frein, uoun, whatever... Por que nada meio monossilábico, rápido, simples? (afinal de contas você trombou no sujeito e não quer deixar o papo render, quer encerrar logo o assunto) Por que não apenas um som, uma ou duas sílabas, tipo 'sorry'? Ok, é alemão, e não há nada simples em alemão. Viver não é simples em alemão.
Voilá!!! Ces't la vie!!!
Animada com meus progressos linguísticos, fui para a França e lá, senhores e senhoras, a coisa rendeu... Era um tal de Bonne Année pra lá e pra cá na madrugada do dia primeiro de janeiro de dois mil e nove que, sinceramente, eu estava me achando... Tudo bem que isso ocorreu VÁRIAS GARRAFAS DE VINHO DEPOIS, várias horas depois de termos dançado Ivete Sangalo (ok, esse parêntesis é só para dizer que o ser humano é capaz de coisas muito estranhas quando está longe das suas origens, dos seus entes queridos, do seu país), várias horas depois de termos nos aventurado, na neve (temperatura negativa, que fique bem claro), na Torre Eiffel. Mas a minha capacidade de interagir em francês de madrugada estava ótima. Bastante fluente. Tive que interromper algumas conversas por absoluta falta de vocabulário (o que se diz depois de bonne année???), mas ninguém se importou, naquela hora da noite.
Bom, o importante é que eu desejo um Bonne Année para você também.
E que você aprenda a dizer coisas diferentes a cada ano.
E dizer coisas diferentes implica viver e sentir diferente.
And this is unique.
Happy New Year!!!
Confesso que depois do Natal na Alemanha, Ano Novo na França, despedida de namorado em Londres, me deu uma preguiça de começar este ano.
É ruim a sensação de estar, mas não estar em lugar nenhum.
Ou de estar num lugar onde tudo, sempre, é temporário.
Passei duas semanas na Alemanha tentando aprender a falar Feliz Natal. Claro que o 'Frohe Weihnachten' não saiu, digamos assim, perfeito. Mas meio bêbada, depois de ter encarado a Oma _ que chamou minha sobremesa maravilhosa de Leka, Leka, Leka (e que fique bem claro que Leka não é geleca nem meleca) _, e de ter dado abraços e beijos no casal alemão que passou horas conversando comigo sem que eu fosse capaz de dizer UMA frase no idioma deles, dizer 'Frohe Weihnachten' foi fichinha.
O complicado mesmo é pronunciar Entshuldigen.
Meu namorado já tinha desistido da minha capacidade linguística, sobretudo depois de perceber os sons mirabolantes que eu tentava emitir para dizer um simples "Dank". Demorou, e apesar do ceticismo extremo dos meus entes queridos eu consigo sim, senhoras e senhores, falar Entshuldigen! Sinceramente, acho que vai ser a única palavra que eu vou aprender nesta vida do idioma. E como foi sofrido...
Imagine você, andando pela rua, de repente dá uma simples trombadinha na pessoa e, apressadamente, tem que soltar essa: Entshuldigen!. Por que não dizer: hein, dein, frein, uoun, whatever... Por que nada meio monossilábico, rápido, simples? (afinal de contas você trombou no sujeito e não quer deixar o papo render, quer encerrar logo o assunto) Por que não apenas um som, uma ou duas sílabas, tipo 'sorry'? Ok, é alemão, e não há nada simples em alemão. Viver não é simples em alemão.
Voilá!!! Ces't la vie!!!
Animada com meus progressos linguísticos, fui para a França e lá, senhores e senhoras, a coisa rendeu... Era um tal de Bonne Année pra lá e pra cá na madrugada do dia primeiro de janeiro de dois mil e nove que, sinceramente, eu estava me achando... Tudo bem que isso ocorreu VÁRIAS GARRAFAS DE VINHO DEPOIS, várias horas depois de termos dançado Ivete Sangalo (ok, esse parêntesis é só para dizer que o ser humano é capaz de coisas muito estranhas quando está longe das suas origens, dos seus entes queridos, do seu país), várias horas depois de termos nos aventurado, na neve (temperatura negativa, que fique bem claro), na Torre Eiffel. Mas a minha capacidade de interagir em francês de madrugada estava ótima. Bastante fluente. Tive que interromper algumas conversas por absoluta falta de vocabulário (o que se diz depois de bonne année???), mas ninguém se importou, naquela hora da noite.
Bom, o importante é que eu desejo um Bonne Année para você também.
E que você aprenda a dizer coisas diferentes a cada ano.
E dizer coisas diferentes implica viver e sentir diferente.
And this is unique.
Happy New Year!!!
Assinar:
Postagens (Atom)