Sempre me senti hipnotizada por crianças, mas certamente há uma sensibilidade especial em meu útero e uma vontade genuína de ser mãe que me fazem desconectar do resto do mundo quando essas pequenas criaturinhas atravessam minha rotina. Penso que conectar a minha vida de adulta com a mente dos pequenos me faz entender o que estou fazendo aqui.
"Mom, it is really dangerous to stand up, isn't it?"
Yes, it is. E a mãe lhe explica que ficar em pé no ônibus não é uma boa idéia porque o motorista pode frear bruscamente e ele vai bater a cabeça no vidro e se machucar muitoooooooooooooooo...
"And it hurts." Yes, it hurts. A mãe é tão clara que ele nem se atreve. Mas claro que é preciso encontrar alguma novidade no ônibus. Lentamente, ele se ajoelha no assento e gira o corpo em direção ao banco detrás. Olha o jovem casal silencioso e se enche de coragem: "Uaaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhhh". Os gestos, a cara e a entonação do rugido me fazem ter a certeza de que ele havia imitado um leão. A mãe segura o riso. Eu idem.
O casal não se mexe. Nem a mãe. Ele se desencanta. Senta-se novamente.
"It is dangerous to move, isn't it, Mom?" Brava, ela encara seriamente o bravo leãozinho, que já sabe a resposta. Ele espera alguns minutos, deixa a mãe se distrair, mas vira de novo rapidamente para o casal e solta um novo e violento urro. Eu não me aguento. Me derreto de rir no assento ao lado, impressionada com a insensibilidade do jovem casal diante do rei da selva. Mas, claro, tenho medo de encarar a mãe.
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Se bravos são os filhos, guerreiras são as mães. Conecto o episódio no ônibus com o texto que recentemente havia lido sobre Las Madres de la Plaza de Mayo, que enfrentaram a ditadura militar na Argentina na década de 80 em busca de seus leões desaparecidos. Mães são capazes de tudo pelas crias. São a única prova do amor incondicional.
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Hoje, no metrô, a curiosidade infantil volta a me perseguir. "Do we always mind the gap?" Oh, yes, always. Quem responde desta vez é a vovó. Com as perninhas balançando no ar, sapatinhos mocassim pretos, gorrinho combinando com cachecol, ele observa tudo e acha um tanto exagerada a repetição britânica dos "Mind the Gap" em toda estação. Vira (será que todos eles sempre se viram, repentinamente???), fica em pé no assento e se depara com o cartaz no vidro: "Please keep feet off the seat". A vovó lê bem alto o cartaz. Envergonhado, ele vai descendo, lentamente, e fica novamente sentado, como quem não quer nada.
"Mind the gap", repete de novo o motorista na próxima estação.
"Mind the gap, mind the gap; there are always gaps", reflete o pequenino, falando baixinho para si mesmo, e arrancando gargalhadas deliciosas da vovó.
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