terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Library

Talvez seja a falta de sol, cerveja gelada e peixinho frito.
Talvez seja algum hormônio que se ativa nos dias cinzas.
Falta de coxinha? Guaraná Antárctica?
Falta de coragem de não fazer nada?
Necessidade de achar que você de fato faz alguma coisa?
Enfim, seja a razão gastronômica, filosófica, cultural ou ambiental, o fato é que a obsessão do estudante inglês por biblioteca é realmente um fenômeno científico. E pior: contagiante.
Nos dias em que eu resolvo estudar em casa _ auto-afirmando que tudo na vida é uma questão de disciplina, que eu sou uma mulher madura e uma estudante auto-centrada _, o meu inconsciente grita freneticamente: vá imediatamente para a biblioteca! Mas não, eu não vou. Uma paradinha para o chá, outra para o café, outra para ver emails, outra para ler novos blogs recém-descobertos, um amigo no skype aqui, uma irmã no messenger acolá. Não rende. Simplesmente. É um dia inteiro para ler um ou dois artigos em inglês.
Já na biblioteca.... A coisa é frutífera. Organizo textos, penso, seleciono livros e mais livros, leio quatro artigos. É batata! Ou melhor: é científico.
Se fosse Einstein, a fórmula seria assim: e.c = (m.t.p)2 /4
Traduzindo: estudar em casa é igual a: muito tempo perdido ao quadrado, divido pelos quatro artigos ou quatro capítulos de livro que você não vai ler.
Como tudo na vida, você precisa passar pela experiência para entender.
Bibliotecas têm algo mágico.
Primeiro que elas, aqui, têm aquela aura de "O Nome da Rosa". Outro dia me perdi na Senate House Library e entrei num labirinto com cheiro de arsenico, livros de capa dura formato A2 (sei lá se é A2, A5 ou A3, mas é bem maior que A4). Era o setor de teologia. Claro que entre os padres anglicanos eu vi o Sean Connery.
Na biblioteca você tem devaneios criativos, cinematográficos.
Você tem uma opressão sufocante. Literalmente. Está encurralada no meio de milhares de livros. Freud, Aristóteles, Marx, Gramsci, Lacan, Foucault, Hobbes, Weber, Hegel estão todos ali, vigiando que tipo de contrato social você vai inventar para o seu inconsciente e qual antítese será invocada para explicar, democraticamente, a síntese do seu vazio intelectual caso você, simplesmente, não estude. Ou seja, você não tem saída.
Quando você entra na biblioteca, todos te olham. Mas é um olhar suave, do tipo que Hitler daria se fosse uma velhinha bondosa que mora no alto da colina. Mas ela continua sendo Hitler.
Você checa sua lista de livros. Pega o que precisa. Senta-se. Começa. Há um relógio à sua frente. Você terá quatro, cinco horas. O tempo passa. Mas passa com qualidade. Você não pode desviar sua atenção. Não pode comer. Não pode atender telefone. Não pode falar, basicamente. Sabe aquela coisa de "você e sua consciência"? Pois é. Existe. Ali na biblioteca.
Você só ouve a respiração dos que estão a seu lado estudando. Cria uma competição imaginária.
Quando está exausto, pensa no café. Mas o campo visual a seu redor te detém: se você passar quinze minutos tomando café, eles, os seus concorrentes intelectuais (mesmo que imaginários), vão ler três capítulos a mais que você.
Você quer ir ao banheiro. Não. Weber nunca fez xixi. Sossegue.
Você tem vontade de comer chocolate. Não. Hegel devia ser esquálido.
Você pensa nos emails. Pare. Aristóteles escrevia em pergaminho.
E assim as horas passam, o intelecto te alimenta.
Toca a sirene. Todos se levantam das suas cadeiras, chateados.
O templo se fecha.
Eu saio dali exultante, orgulhosa. Cumpri meu dever de estudante.
Vou para a casa pensando no marxismo ecológico, nas respostas ineficazes para a globalização, na falência da construção do Estado na América Latina, na necessidade de revisitar a teoria da democracia.
Mas meu pensamento mais forte mesmo é o da cerveja gelada na praia.
De preferência com o Sean Connery.

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