domingo, 23 de dezembro de 2007

Um

Desisti de número par. (?)
Falei muito, ou pouco.
Atirei-me demais.
Chorei quieta em demasia.
Coloquei sal grosso em ferida aberta.
Evitei putrefações.
Oscilo agora entre o muito e o nada.
Nenhum ou mais de três.
Quero-os todos, desejo nenhum.
Nem sempre estou triste, tampouco alegre.
Quando violenta-me a consciência da solidão
Sonho com casas sem saída, becos escuros, excesso de gente.
Entenda: aprendi a conjugar o verbo um.
Não sei mais ser dois. (?)

sábado, 22 de dezembro de 2007

Brincadeira de 2008

Do que é que você brinca?
A pergunta é do Chico, mas quem formula o convite sou eu.
Esqueça polícia e ladrão. Muita correria.
Panteras? Só pra meninas...
Para cutucar quem precisa, queimada. Com bola de meia.
Bola de gude _ em horas de introspecção.
Sinuca, truco, corrida de saco, estoura balão.
Recomendo soltarmos papagaio, ou pipa, dependendo da região.
Campeonato de bicicleta (quem tiver, pode ir de Ceci).
Escolha você do que vamos brincar.
Não preciso te lembrar do que você já fez.
Mas preciso te alertar para o risco de não fazer mais.
É por isso que eu te convido.
A buscar um ano mais leve,
A se permitir rir sem compromisso,
A andar solto na rua,
A se esconder se preciso,
A procurar o pique,
A correr,
A sentir o vento,
O mar, o rio, o sol,
Fazer castelo na areia,
Sentir dor de queimado de praia,
Comprar um baralho novo,
Organizar o jogo inesquecível para enterrar o velho,
Beber porradinha,
Colocar Keep Cooler no carrinho do supermercado,
A equilibrar o ovo na colher,
A puxar a corda para o teu lado,
Pular elástico,
A voar de balão.
A ser bailarina,
Ver fotos do Falcon,
Pegar os filmes do Jerry Lewis,
Se vestir de Homem Aranha, Mulher Maravilha.
A consertar a mesinha de totó (sim, totó).
A olhar para frente, para trás, para os lados.
E ter certeza de quem você é. E de quem você quer ser.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

No princípio, era o verbo

Panicar (v.t.i)/Do greg. panikus = ato ou efeito de sentir dor e medo por algo, por falta de algo, ou por alguém.
Ex: Ela panicava por não mais conseguir tocá-lo.
Colapsar (v.i) = Relativo a colapsos, apresentar queda de força gradual ou fim abrupto de energia vital.
Ex: Sem ele, colapsava.
Eclipsar (v.t.d.i) = saltar de um estágio a outro; transgredir ou transcender; experiência de passar do claro ao escuro, do escuro ao claro; tampar o sol ou a lua
Ex: Leva a certeza de que ela eclipsa em dia de sol ao lado dele.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Preservação

Salvem suas persianas.
Miro a Kombi branca, sem entender a mensagem.
Assimilo gradualmente a importância do texto.
Viver sem anteparos é se expor à luz de forma constante.
O humano não suporta tanto sol.
Cria teorias sobre lesões da pele.
Formula protetores.
Rompe buracos no espaço.
Intensifica a produção de gases.
Precisa das persianas.
Das baleias.
De estranhas frases soltas nas ruas, nos carros, nos adesivos.
De caminhos tortos.
Da salvação distante.
Do fim das extinções.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

A carta de Tadeu

Giro a chave e a portinhola está emperrada. Excesso de volume.
Muita comida chinesa barata, as últimas novidades do setor de plástico _como a vasilha para secar salada com cordinha e ímã _, mais uns cinco prédios novos só na minha rua, gente avisando que faz trabalhos para trazer de volta o seu amor _e o pagamento, minha filha, só depois do resultado _, extratos e mais extratos bancários, condomínio não pago, banda larga, só telefone, aviso sobre a dedetização de fim de ano, japonês que também entrega em casa, a difícil realidade sobre cartões de crédito, as facilidades de comprar gás por telefone, delivery de ração de gato...
Olho de novo para a caixinha do correio e não consigo imaginar espaço para tanta inutilidade num recipiente tão pequeno.
No meio de tudo, envelope branco, não assinado. Um cartão. Leio. É Tadeu, o primeiro a desejar que o ano seja bom, que o Natal tenha algum significado.
Me emociono.
Não acumulo raiva pelo fato de Tadeu ter colocado tudo aquilo na minha caixa postal. Ele se redimiu. Deixou um abraço, se apresentou.
Quis escrever de volta. Tadeu não deixou endereço.
Tem nada não.
Dia desses, quando abrir a janela, ele vai estar lá embaixo, ainda de amarelo e azul.
“Ei, Tadeu, feliz 2008.
Um beijo, Malu.”

Dimólogo

Te escrevo porque não sei conversar.
Até sei o que dizer, mas sempre imagino sob silêncio.
Não falo em voz alta.
Reproduzo também, calada e mentalmente, as suas respostas.
Elas brigam muito com minhas perguntas.
Minhas palavras retrucam delicadamente as suas.
É um diálogo, afinal.
E vamos assim, trocando idéias, horas a fio.
Terminada a troca de frases à exaustão, nos despedimos.
Sei exatamente o que você pensa sobre tudo.
Você agora tem certeza de quem eu sou.
Não resta dúvida.
Ah, volta, tem mais uma coisa que eu não falei:
Qual é mesmo seu nome?

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Chuva

Hoje tomei chuva.
Porque quis.
Lembro-me de pés na enxurrada, o primeiro orgasmo infantil.
Gotas pincelam o rosto e penso: desopilar.
No conceito de devastação.
A psicóloga diz: terra devastada é terra estéril.
Não estou devastada.
Ainda sei me molhar.

domingo, 2 de dezembro de 2007

De vez em quando

Passe lá em casa de vez em quando.
De vez em quando me ligue.
Pergunte-me como dormi.
Convide-me para um almoço.
De vez em quando tome café da manhã comigo.
Ligue de vez em quando no meu aniversário.
Me dê um presente. Só de vez em quando.
Alguma vez me faça uma surpresa.
Mande flores, carta pelo correio. De vez em quando.
Coloque a música baixinho, quando eu chegar, mesmo que seja de vez em quando.
Faça massagem nos meus pés. Cante pra mim. Me embale.
Rodopie comigo na sala, de vez em quando.
Dê aquele abraço depois do dia difícil.
Passe a mão no meu rosto para, de vez em quando, impedir a queda das lágrimas.
Chore de vez em quando.
Me entregue seu corpo. Beije-me. Só de vez em quando.
Leia em voz alta. Me veja ler em voz baixa.
Recite. Conte. Comente.
Eu sei que só será de vez em quando.
De vez em quando eu vou pensar que é para sempre.

Pensamento

Vem em qualquer geometria.
Os últimos foram hexaedro.
Sete direções. Em raios, diagonais.
Me confundem, me isolam na cama, me fixam ao lustre.
O que quero, o que amo, quem eu quero, o que dele espero, valsa ou rock, sentinela ou choque, é amor ou toque?
Serei sempre o inconstante.