Quando as pessoas mais próximas imaginam que haverá algum sofrimento por conta da distância, o consolo é imediato e sempre universal: "Passa rápido, você vai ver".
É estranho sentir-se de certa forma desolado quando você está partindo para um destino que escolheu, para uma aventura que almejava há tempos, para um projeto pessoal e profissional certamente enriquecedor. No entanto, o coração fica um tanto amiúde quando você sente a mais profunda solidão e ela começa a se manifestar logo após sua acomodação na poltrona da aeronave da Swiss Air.
10 de julho de 2008, a caminho de Guarulhos. Ele dirigia, eu chorava. Enquanto chorava, atendia aos telefonemas sucessivos das quatro irmãs e do único irmão. Depois, o adeus da mãe e do pai. Os amigos mais próximos também se despedem. Só escuto, porque o pranto é tanto que emudece. Tudo dá errado no aeroporto. Confusão na declaração do laptop e das "divisas" modestas que deixam o tão querido Brasil. A sorte fica por conta de um simpático funcionário da Receita Federal que, percebendo minha alteração psíquica, me ajuda a resolver toda a burocracia com um simples clique no teclado do computador. Dentro do avião, tudo parece estranho. O lugar é péssimo, aquele do meio, cinco poltronas grudadas. Assisto a um filme tão ridículo que até hoje sou incapaz de me lembrar do nome. Choro, lenta e intermitentemente. A aeromoça tenta falar alemão comigo e me irrita. Respondo em inglês. Ela coloca o jantar na minha mesa sem nem perguntar qual opção eu prefiro. Me irrito de novo e pergunto: o que temos para o jantar? Ela responde "massa" ou "carne". Eu revido: e isso que você colocou aqui é o que? Ela: massa. Eu: pois é, prefiro carne. Começo a sentir um leve preconceito vindo do mundo europeu. Me assusto com o que pode estar por vir.
11 de julho de 2008, London City Airport: Sarah Rink me busca do aeroporto. Não sei dizer o que seria de mim sem o carinho desta amiga no meu primeiro dia em London. Me sinto em casa, de alguma forma. Ela me leva para a casa dela. No dia seguinte, Ian, que se transformou em outro amigo querido, gentilmente aluga um carro e me leva para a residência estudantil. Anne Stephenson Hall. O nome que me perseguirá por quase três meses. Pânico na chegada. Desespero ao mirar o quarto minúsculo, o armário minúsculo, o meu lar tão minúsculo e tão vazio de gente.
10 e 11 de julho de 2009: Passei os dias em casa, trabalhando na minha tese. Tomei café da manhã com Sarah, a flatmate italiana. Chove e faz sol em Londres. Normal. Mas o verão enche as almas de alegria. Não sofro de ficar em casa. Tenho um trabalho a terminar. Tenho um objetivo. E, um ano depois, entendo os altos e baixos da solidão.
My balance:
- Um corte gigante no queixo;
- A primeira "bladder infection" da vida;
- Quatro ou três quilos a menos (finalmente, já era hora!);
- Anna, Catia e, recentemente, Sarah;
- Sarah e Ian, sempre;
- Vanessinha, Jogurt e Cles, e consequentemente a Barbie Girl e os pais dela;
- Uma ítalo-colombiana e uma colombiana americanizada que nunca mais vão sair do meu coração;
- Três novas magníficas criaturinhas no mundo: Lara, Felipe e Sophia;
- Um Master sobre globalização enquanto o mundo agora parece estar se "desglobalizando";
- Avanços no inglês (nem tanto, mas pelo menos umas boas 100 novas palavras foram incorporadas solidamente no vocabulário);
- Liow or more specifically Nipon Terror;
- One lovely twaianese friend (Mei and the 'Susies');
- Um inglês casado com uma cubana;
- A primeira experiência de climbing indoor;
- My red bike and a new passion for cycling...;
- Some good books about Latin America and... DEMOCRACY...
- Alguma noção sobre o que é a América Latina;
- Novos vícios: honey roasted cashews and Carrs (agora na versão QUEIJO);
- O Morrinsons;
- Vontade de comer Fish and Tips (de verdade, e não só por curiosidade);
- Pouco álcool, quase nenhuma carne vermelha;
- Paixão incontrolável pelo sol;
- Atração por bibliotecas;
- Aquisição de um certo sarcasmo inglês ao meu sarcasmo natural;
- A descoberta de incríveis scholars, como Guillermo O'Donnell e Robert Dahl (tardio, mas sempre válido);
- Crescente admiração por Philip Roth;
- Um ano sem TV: e eu não morri;
- Vício completo, absoluto, integral e incurável em House MD, Brothers and Sisters, and Gray's Anatomy;
- Pouquíssimo dinheiro na conta corrente;
- A cura, segundo o Tea Tree;
- Visão altamente crítica sobre a mídia brasileira (já era, só fez piorar);
- Entendimento mais claro sobre a definição de "accountability";
- Crença na "Rule of Law";
- Entendimento profundo sobre a burocracia inglesa (a Era Victoriana precisa acabar, sério);
- Conteúdo e boa experiência para publicar o livro de auto-ajuda "Como ser paciente, engolir sapos e fingir que acredita nas boas intenções do Home Office"
- Ódio profundo da Virgin Broadband, Carphone Warehouse, Transport for London (or against London), and Thames Water;
- Ódio profundo da dissimulação do landlord;
- Ódio profundo do freezer que passou um ano sem funcionar;
- Guinness forever;
- Sentimento de humilhação em vários momentos;
- Sentimento de raiva em vários outros;
- Uma saudade indescritível;
- A ciência de quem são meus amigos de verdade e onde eles estão;
- A descoberta do que é o amor genuíno, e de como ele é paciente e pode esperar.
Acho que o saldo é positivo, afinal.
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6 comentários:
Malena! Milu amou! E está morrendo de saudades de vc, além de precisar MUITO conversar sobre a vida e tudo que está acontecendo nela com você! Só nao entendi como um sem TV e vc se viciou mais em mais séries?
Bjs
Internet, Milu... Internet... E milhões de novos websites chineses (eles estão em TODAS) com TUDO o que vc imagina...
malu.....thanks for my characterization. i never thought about myself as americanized....but that is fair, i guess! now....you forgot about 'social disease'.......that was a big thing this year malu!!!!! unless u never had it and were pretending....were you???
hahahaa! eu nao sou assim moderna, Malena! ainda uso a televisao!
bjs e saudades de vc!
Você também faz parte do meu balanço positivo de Londres!!!! Thanks por existir!!!!!
Falta grave no seu balanço : visita pra lara! Vem logo resolver isso, vem?!
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