Em um raro momento de privacidade, sábado de manhã e estou sozinha na Staveley Close. Fantastic. Posso tomar café com o som ligado e alto, posso assistir a vídeos estúpidos e morrer de rir. Falo sozinha com o locutor sem medo de ser observada.
Toca a campainha. Nem o Royal Mail vai atrapalhar meu momento intimista hoje, sério. Estou determinada. Mas parece ser algo diferente.
Tenho medo do golpe da Eletropaulo ou da Telefônica, mas rapidamente me dou conta de que não estou em São Paulo.
Abro a porta. Uma senhora de bengala, super simpática, me entrega um papel.
"Gostaria de lhe fazer esse convite", ela diz, após colocar o papel em minhas mãos.
Suavemente ela sorri, agradece, vira as costas e me deixa ali, sozinha, lendo o convite.
"How can you survive the end of the world? You are warmly invited to come and listen to the answer."
Wait a minute! No Bible. No preach. Just an invitation. Seriously?
Tenho vontade de gritar e pedir para ela voltar. Como assim ela bate sábado de manhã na minha porta, me diz que o mundo vai acabar, e me convida para uma reunião para saber quando e o que fazer? Nada pode ser mais angustiante.
Penso em pedir uma dica: vai acabar em que mês? Ano? Tem porta de emergência? Em que país é melhor estar para chegar mais rápido ao paraíso (se é que eu tenho alguma chance de entrar no paraíso)? Levo o sleeping bag comigo? Um casaco de lã? Cantil?
Fico perturbada, pois se a senhora foi tão simpática, não abriu a boca, e não tentou me vender bíblia é porque algo muito errado deve estar mesmo acontecendo no mundo. Pronto. O mundo vai mesmo acabar.
Presto atenção na foto do convite da Conferência das Testemunhas de Jeová. Parece que todos estão em um vale. Há uma nuvem negra enorme cobrindo o céu. Uma fila gigantesca de pessoas. Os que estão na frente sorriem e olham para o horizonte. Certamente estão vendo deus. Ou uma mesa de café da manhã linda, com frutas tropicais, cereais, pão fresco, café, pão de queijo, geléia, bolo de fubá, bolo de cenoura com chocolate, e essas coisas todas que qualquer paraíso que se preza deve ter.
Os do meio viram para trás e acenam para os do fundo, mas não parecem lá muito preocupados. Devem ter certeza que o paraíso fica aberto até mais tarde e vai dar tempo de chamarem a senha deles. Já os últimos da fila... Sinceramente. É de dar dó. Levam consigo uma cara de pânico, todos submersos naquela escuridão da enorme nuvem cinza no céu. Certamente vão dar com a cara na porta, porque o paraíso não funciona full time e tem hora para encerrar o café da manhã.
Procuro mais informações no meu folheto.
"Admission is free, and no collection are taken."
Agora tenho mesmo certeza. É o fim. Não vendem bíblia, não pregam, e não vão coletar o dízimo?????? Acabou. É a hora.
Checo os locais da conferência. Preciso de instruções, ora bolas!
Preocupada, coloco o folheto na bolsa e vou me encontrar com amigas no Portobello Market. Mostro a elas o folheto. Uma delas, iraniana, diz que deus pode ser tudo, inclusive uma "spoon". [Hã? Too much information in a Saturday morning.]
Ela me conta meio indignada que o namorado, italiano e católico fervoroso, acredita na virgindade de Maria. Difícil levar adiante conversas sobre religião.
Mas ela deixa uma pergunta intrigante no ar. Onde é que a Virgem Maria foi enterrada? Por que o corpo dela não foi preservado pela Igreja Católica para que pessoas incrédulas, como ela (que acredita no poder da colher), pudessem ver e pensar a respeito?
Não tenho resposta pra nada. Olho para a colher ao lado da minha xícara de chá. Pagamos a conta e resolvemos aderir ao protesto em prol da democracia no Irã, em frente à Embaixada do Irã em Londres.
É. Não há mais dúvida.
O fim do mundo não parece estar muito distante.
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Um comentário:
quando eu estava no correio daqui de Brasília enviando o pacote de livros pra você, um daqueles jovens missionários americanos que rondam pela cidade sentou ao meu lado, esperou 30s e disse: você conhece Jesus? Eu disse que sim, que era um amigo meu de infância e que agora estava namorando a Madonna. Ele não achou graça....
Aí ele não deixou barato: - Pois eu tenho certeza de que Deus existe, e se você quiser conversar sobre o assunto, estou aqui pra lhe ajudar.
Apontei pro jornal que eu estava lendo, com uma foto do Lula abraçando o Collor, e disse que depois disso eu acreditava em qualquer coisa...
Ele não entendeu e não achou graça....
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