sábado, 25 de julho de 2009

How can you survive?

Em um raro momento de privacidade, sábado de manhã e estou sozinha na Staveley Close. Fantastic. Posso tomar café com o som ligado e alto, posso assistir a vídeos estúpidos e morrer de rir. Falo sozinha com o locutor sem medo de ser observada.
Toca a campainha. Nem o Royal Mail vai atrapalhar meu momento intimista hoje, sério. Estou determinada. Mas parece ser algo diferente.
Tenho medo do golpe da Eletropaulo ou da Telefônica, mas rapidamente me dou conta de que não estou em São Paulo.
Abro a porta. Uma senhora de bengala, super simpática, me entrega um papel.
"Gostaria de lhe fazer esse convite", ela diz, após colocar o papel em minhas mãos.
Suavemente ela sorri, agradece, vira as costas e me deixa ali, sozinha, lendo o convite.
"How can you survive the end of the world? You are warmly invited to come and listen to the answer."


Wait a minute! No Bible. No preach. Just an invitation. Seriously?
Tenho vontade de gritar e pedir para ela voltar. Como assim ela bate sábado de manhã na minha porta, me diz que o mundo vai acabar, e me convida para uma reunião para saber quando e o que fazer? Nada pode ser mais angustiante.
Penso em pedir uma dica: vai acabar em que mês? Ano? Tem porta de emergência? Em que país é melhor estar para chegar mais rápido ao paraíso (se é que eu tenho alguma chance de entrar no paraíso)? Levo o sleeping bag comigo? Um casaco de lã? Cantil?
Fico perturbada, pois se a senhora foi tão simpática, não abriu a boca, e não tentou me vender bíblia é porque algo muito errado deve estar mesmo acontecendo no mundo. Pronto. O mundo vai mesmo acabar.

Presto atenção na foto do convite da Conferência das Testemunhas de Jeová. Parece que todos estão em um vale. Há uma nuvem negra enorme cobrindo o céu. Uma fila gigantesca de pessoas. Os que estão na frente sorriem e olham para o horizonte. Certamente estão vendo deus. Ou uma mesa de café da manhã linda, com frutas tropicais, cereais, pão fresco, café, pão de queijo, geléia, bolo de fubá, bolo de cenoura com chocolate, e essas coisas todas que qualquer paraíso que se preza deve ter.
Os do meio viram para trás e acenam para os do fundo, mas não parecem lá muito preocupados. Devem ter certeza que o paraíso fica aberto até mais tarde e vai dar tempo de chamarem a senha deles. Já os últimos da fila... Sinceramente. É de dar dó. Levam consigo uma cara de pânico, todos submersos naquela escuridão da enorme nuvem cinza no céu. Certamente vão dar com a cara na porta, porque o paraíso não funciona full time e tem hora para encerrar o café da manhã.
Procuro mais informações no meu folheto.
"Admission is free, and no collection are taken."
Agora tenho mesmo certeza. É o fim. Não vendem bíblia, não pregam, e não vão coletar o dízimo?????? Acabou. É a hora.
Checo os locais da conferência. Preciso de instruções, ora bolas!
Preocupada, coloco o folheto na bolsa e vou me encontrar com amigas no Portobello Market. Mostro a elas o folheto. Uma delas, iraniana, diz que deus pode ser tudo, inclusive uma "spoon". [Hã? Too much information in a Saturday morning.]
Ela me conta meio indignada que o namorado, italiano e católico fervoroso, acredita na virgindade de Maria. Difícil levar adiante conversas sobre religião.
Mas ela deixa uma pergunta intrigante no ar. Onde é que a Virgem Maria foi enterrada? Por que o corpo dela não foi preservado pela Igreja Católica para que pessoas incrédulas, como ela (que acredita no poder da colher), pudessem ver e pensar a respeito?
Não tenho resposta pra nada. Olho para a colher ao lado da minha xícara de chá. Pagamos a conta e resolvemos aderir ao protesto em prol da democracia no Irã, em frente à Embaixada do Irã em Londres.
É. Não há mais dúvida.
O fim do mundo não parece estar muito distante.

sábado, 18 de julho de 2009

About waste and recycling....

Eu não sei explicar o grau de indignação com o qual recebi a notícia de que 1.400 toneladas de lixo (TÓXICO E HOSPITALAR, INCLUINDO BOLSAS DE SANGUE) foram transportadas do Reino Unido e despejadas em três portos do Brasil.
Algumas hipóteses para tal sentimento:

a) Talvez porque durante este ano eu tenha estudado um pouco mais sobre a ação do Império Britânico e dos Estados Unidos na América Latina;

b) Talvez porque eu já sofria ao ler as sucessivas notícias sobre a "exportação" global de lixo dos países desenvolvidos para a África e pensava na incapacidade institucional do continente para reagir;

c) Talvez porque tenho tentado reciclar lixo por um ano na Inglaterra e tenho total consciência de como o sistema é desorganizado, incipiente, ineficaz, descuidado;

d) Talvez porque eu veja o descaso dos ingleses para reciclar lixo (eu moro com um, e ele é único que sistematicamente dá sinais de pouca ou nenhuma colaboração com a causa; já achei vários potes de vidro e plástico usados pela figura no lixo orgânico; o ser humano se recusa a jogar na sacola destinada ao recycling);

e) Talvez porque me irrita a calma do governo brasileiro, das instituições, e, sobretudo, da mídia. Por que o Lula não veio a público até agora criticar isso aberta e duramente? O Brasil não tem procurado se associar à África, no eixo sul-sul? Então, taí: bom momento para abrir a boca e criticar o "Império" por uma ótima causa; por que a mídia brasileira não considera o caso absolutamente prioritário e começa uma investigação sistemática e de qualidade?; se fosse o contrário, garanto que ia ter jornalista britânico batendo na porta do governo brasileiro dia após dia;

f) Talvez porque eu imagine o fim do mundo como o Cartoon do Wall-E. Só que, fora da ficção, não vai ter nenhum espaço para romance com Eva.

Se a gente não começar a pensar na questão do lixo seriamente AGORA, em qualquer país do mundo, certamente esse será o maior problema da humanidade no futuro. Indignação coletiva pode ser um primeiro passo.

domingo, 12 de julho de 2009

London, one year

Quando as pessoas mais próximas imaginam que haverá algum sofrimento por conta da distância, o consolo é imediato e sempre universal: "Passa rápido, você vai ver".
É estranho sentir-se de certa forma desolado quando você está partindo para um destino que escolheu, para uma aventura que almejava há tempos, para um projeto pessoal e profissional certamente enriquecedor. No entanto, o coração fica um tanto amiúde quando você sente a mais profunda solidão e ela começa a se manifestar logo após sua acomodação na poltrona da aeronave da Swiss Air.

10 de julho de 2008, a caminho de Guarulhos. Ele dirigia, eu chorava. Enquanto chorava, atendia aos telefonemas sucessivos das quatro irmãs e do único irmão. Depois, o adeus da mãe e do pai. Os amigos mais próximos também se despedem. Só escuto, porque o pranto é tanto que emudece. Tudo dá errado no aeroporto. Confusão na declaração do laptop e das "divisas" modestas que deixam o tão querido Brasil. A sorte fica por conta de um simpático funcionário da Receita Federal que, percebendo minha alteração psíquica, me ajuda a resolver toda a burocracia com um simples clique no teclado do computador. Dentro do avião, tudo parece estranho. O lugar é péssimo, aquele do meio, cinco poltronas grudadas. Assisto a um filme tão ridículo que até hoje sou incapaz de me lembrar do nome. Choro, lenta e intermitentemente. A aeromoça tenta falar alemão comigo e me irrita. Respondo em inglês. Ela coloca o jantar na minha mesa sem nem perguntar qual opção eu prefiro. Me irrito de novo e pergunto: o que temos para o jantar? Ela responde "massa" ou "carne". Eu revido: e isso que você colocou aqui é o que? Ela: massa. Eu: pois é, prefiro carne. Começo a sentir um leve preconceito vindo do mundo europeu. Me assusto com o que pode estar por vir.

11 de julho de 2008, London City Airport
: Sarah Rink me busca do aeroporto. Não sei dizer o que seria de mim sem o carinho desta amiga no meu primeiro dia em London. Me sinto em casa, de alguma forma. Ela me leva para a casa dela. No dia seguinte, Ian, que se transformou em outro amigo querido, gentilmente aluga um carro e me leva para a residência estudantil. Anne Stephenson Hall. O nome que me perseguirá por quase três meses. Pânico na chegada. Desespero ao mirar o quarto minúsculo, o armário minúsculo, o meu lar tão minúsculo e tão vazio de gente.

10 e 11 de julho de 2009: Passei os dias em casa, trabalhando na minha tese. Tomei café da manhã com Sarah, a flatmate italiana. Chove e faz sol em Londres. Normal. Mas o verão enche as almas de alegria. Não sofro de ficar em casa. Tenho um trabalho a terminar. Tenho um objetivo. E, um ano depois, entendo os altos e baixos da solidão.

My balance:
- Um corte gigante no queixo;
- A primeira "bladder infection" da vida;
- Quatro ou três quilos a menos (finalmente, já era hora!);
- Anna, Catia e, recentemente, Sarah;
- Sarah e Ian, sempre;
- Vanessinha, Jogurt e Cles, e consequentemente a Barbie Girl e os pais dela;
- Uma ítalo-colombiana e uma colombiana americanizada que nunca mais vão sair do meu coração;
- Três novas magníficas criaturinhas no mundo: Lara, Felipe e Sophia;
- Um Master sobre globalização enquanto o mundo agora parece estar se "desglobalizando";
- Avanços no inglês (nem tanto, mas pelo menos umas boas 100 novas palavras foram incorporadas solidamente no vocabulário);
- Liow or more specifically Nipon Terror;
- One lovely twaianese friend (Mei and the 'Susies');
- Um inglês casado com uma cubana;
- A primeira experiência de climbing indoor;
- My red bike and a new passion for cycling...;
- Some good books about Latin America and... DEMOCRACY...
- Alguma noção sobre o que é a América Latina;
- Novos vícios: honey roasted cashews and Carrs (agora na versão QUEIJO);
- O Morrinsons;
- Vontade de comer Fish and Tips (de verdade, e não só por curiosidade);
- Pouco álcool, quase nenhuma carne vermelha;
- Paixão incontrolável pelo sol;
- Atração por bibliotecas;
- Aquisição de um certo sarcasmo inglês ao meu sarcasmo natural;
- A descoberta de incríveis scholars, como Guillermo O'Donnell e Robert Dahl (tardio, mas sempre válido);
- Crescente admiração por Philip Roth;
- Um ano sem TV: e eu não morri;
- Vício completo, absoluto, integral e incurável em House MD, Brothers and Sisters, and Gray's Anatomy;
- Pouquíssimo dinheiro na conta corrente;
- A cura, segundo o Tea Tree;
- Visão altamente crítica sobre a mídia brasileira (já era, só fez piorar);
- Entendimento mais claro sobre a definição de "accountability";
- Crença na "Rule of Law";
- Entendimento profundo sobre a burocracia inglesa (a Era Victoriana precisa acabar, sério);
- Conteúdo e boa experiência para publicar o livro de auto-ajuda "Como ser paciente, engolir sapos e fingir que acredita nas boas intenções do Home Office"
- Ódio profundo da Virgin Broadband, Carphone Warehouse, Transport for London (or against London), and Thames Water;
- Ódio profundo da dissimulação do landlord;
- Ódio profundo do freezer que passou um ano sem funcionar;
- Guinness forever;
- Sentimento de humilhação em vários momentos;
- Sentimento de raiva em vários outros;
- Uma saudade indescritível;
- A ciência de quem são meus amigos de verdade e onde eles estão;
- A descoberta do que é o amor genuíno, e de como ele é paciente e pode esperar.

Acho que o saldo é positivo, afinal.