Às vezes é melhor manter em segredo o quão estranho você se sente após voltar para um lugar muito tempo depois. O muito tempo depois pode ser dez anos, alguns meses ou décadas a fio. O lugar pode ser a casa onde você viveu na infância, a cidade onde você fez faculdade, o colégio da adolescência, o estado onde você nasceu, etc.
No meu caso, foram nove meses fora do lugar. E o lugar é o Brasil.
A pausa aqui no meu país vai durar apenas algumas semanas. O problema é que eu estava com tanta saudade e tão ansiosa com a chegada que idealizava aquela sensação de amor à primeira vista. Achava que chegaria, convidaria o Brasil para tomar um chope e comer bolinho de bacalhau. Nós dois, eu e o Brasil, nos sentaríamos à beira mar, num cantinho _ e mesmo sem violão _, e comecaríamos a falar da vida, da nossa vida, da vida alheia. Eu, então, me sentiria completíssima num dia de luz, com a festa do sol. E entenderia que quero a vida sempre assim, com o Brasil perto de mim. E que a velha chama, ah, a velha chama, essa não se apaga nunca.
Mas o compasso do nosso reencontro não foi assim tão ritmado. Ficar na fila da imigração mais de uma hora mesmo sendo cidadã brasileira e com passaporte brasileiro (o único lugar deste mundo redondinho em que o seu passaporte de fato deveria valer alguma coisa, pois sabemos que ele não vale o pão que come fora dali) é um tanto desagradável.
Uma hora e meia na Marginal Tietê durante o trajeto Guarulhos-Pinheiros também não é legal.
Ficar sem carro em São Paulo não é gostoso como tomar chope à beira da praia. Andar de carro em São Paulo não é como saborear bolinho de bacalhau.
Abandonar em segundos o sonho de ser ciclista em São Paulo é abandonar a aura mágica dos festivais da canção (e definitivamente).
Ir ao supermercado e "realizar" que as suas compras mensais em Londres ficam mais baratas que as compras mensais no Brasil começa a despertar em sua mente a idéia de que você não quer a vida sempre assim.
Você sabe quem quer perto de você _ e é por isso que estou aqui _, mas por alguns segundos você os olha e não os reconhece.
Você sabe que um dia vai ter que retomar a rotina de trabalho, mas isso simplesmente te entristece.
E se você diz que está estranha, vão dizer que você agora é esnobe. Exceto aqueles que migram com certa frequência e sabem que o mundo globalizado - ou De(s)-Globalizado, como estão redefinindo os teóricos - está mudando as mentes, as almas, os corpos. Que está difícil manter a velha chama acesa porque você começa a se identificar com tudo e nada. Que nenhum lugar é mais o seu lugar porque o seu lugar pode ser qualquer um. "The world is puzzling", me explica uma amiga que também morou fora por algum tempo e retornou há poucos meses ao Brasil.
In other words, I'm puzzling. More specifically, the world is a puzzle.
Acabo de assistir à True Stories, de David Byrne, e tudo ficou mais claro. Quando você realmente quer conhecer um lugar, você precisa esquecê-lo para construí-lo. Esquecê-lo para reconstruí-lo.
I'm forgetting Brasil. E isso não é ruim. Isso é necessário para que eu veja os dia de luz, a festa do sol, essa calma de verão, os dias tão azuis, a tardinha que cai, encontre o barquinho que de algum jeito e por algum caminho sempre vai...
Me deixe te esquecer, Brasil, mas não me deixe. Porque tristeza não tem fim. Felicidade sim...
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