É preciso admitir certas coisas em público.
Nunca escondi minha queda pelo ABBA, embora close friends tenham tentado me alertar sobre a importância de manter a discrição quando o assunto é bastante controverso e, sobretudo, constrangedor.
O aviso fora ignorado diversas vezes _ com especial intensidade no meu aniversário de 30 anos, finalizado, of course, com Dancing Queen.
Dançar Dancing Queen sem a menor vergonha na cara faz um bem sem precedentes. Posso garantir que supera qualquer efeito de meditação, yoga, comida orgânica, Redoxon com Zinco, semente na orelha, própolis e oração para Santo Expedito. Ganha de dez a zero até de São Judas Tadeu, o das causas perdidas.
"Friday night and the lights are low
Looking out for the place to go."
Quando a solidão bate forte em Londres não adianta acreditar em placebo. Tem que ir direto ao ponto. Injeção na veia.
Cheguei ao Odeon de Camden com baixas expectativas. Ok, eu gosto do ABBA, mas daí a dizer que eu aprecio musicais é um salto enorme. Um abismo, digamos assim.
Mas, voltando ao ponto, "friday night and"... Mamma Mia está em cartaz.
Não sei se eu acharia tanta graça no filme no Brasil. Nem mesmo se estaria entre as minhas escolhas numa sexta à noite ou na tarde de sábado em que é preciso ter culhão para enfrentar a fila na Augusta.
Porém _ reforçando meu discurso sobre a eficácia medicinal do ABBA _, resumo dizendo que saí do cinema descendo a escada embalada, pensando na vida em inglês, ignorando a realidade de que eu voltaria para um quartinho minúsculo numa residência de estudantes, desprezando o fato de que meu coração está partido por estar longe do homem que eu amo, e, para finalizar, sem dar a menor importância por estar há horas sem falar com ninguém.
Eu sempre quis ter a chance de estar aqui. Não aos 34, mas tudo bem. A pista muda, mas as músicas que importam são as mesmas.
"And when you get the chance...
You are the Dancing Queen, young and sweet, only seventeen
Dancing Queen, feel the beat from the tambourine
You can dance, you can jive, having the time of your life
See that girl, watch that scene, dig in the Dancing Queen."
sexta-feira, 25 de julho de 2008
quarta-feira, 23 de julho de 2008
Studying in London
Do you have eggs?
Considerando o estágio absolutamente disforme em que se encontrava (e se encontra) a minha mente, a pergunta até que soaria normal. Mesmo vindo de uma holandesa de cabelo desgrenhado e absolutamente pálida, com um pijama preto de moleton cujo tamanho devia superar em mais de três vezes o peso dela.
O problema é que brasileiro acha que tudo é pegadinha. Ainda sem foco, meu cérebro reagiu. "Isso lá é pergunta que se faça? Eu, heim..."
Fiquei ainda um minuto em silêncio tentando elaborar a melhor resposta em inglês. "No, sorry." Enquanto o canal 1 processava a mais correta e rápida resposta, o canal 2 pensava assim: "Ô fiota, tá pensando o que? Tá me estranhando? Onde é que tu tá vendo ovo aqui, ô gringa descabelada?"
Viver em dois canais é quase desumano. Te leva a reagir com sarcasmo diante de uma pergunta pueril. A garota precisava de ovo (cada um com suas crenças) para curar uma ressaca qualquer. Mas o canal 2 é cruel, é a memória remota, nativa, elaborada.
O canal 1 é medroso, lento, acanhado. O seu novo canal. Do tipo incapaz de fazer qualquer comentário depois de ler na TimeOut que Vinícius Cantuária vai se apresentar em Londres. "Hahahahahahahahahahahahahahahaha. Vinícius Cantuária? O cara ainda existe? E a gringalhada acha que o sujeito faz sucesso no Brasil? E não é que ele se deu bem aqui fora? Como era mesmo aquela música horrível que ele cantava? Viva Nova York! Trouxe o Vinícius até Londres." Resposta típica do canal 2.
O canal 1 tenta com delicadeza entender o inglês do chinês de Pequim cuja espessura dos óculos consegue ser menor que a de seus olhinhos. "Que porra de língua é essa que tu tá falando, meu irmão?", fica zumbindo o canal 2, concomitantemente.
Student Residence, single room, chinese roommates, tutors, lectures, Self Study Centre. O canal 1 não se irrita com a retomada de uma vida simples, difícil, regrada. Deixa fluir. Mas o 2... "Tem que ter algum sentido essa merda toda que eu estou fazendo. Que porra eu vim fazer aqui pra ter essa vidinha de merda de estudante, largar tudo, deixar meu amor me esperando, ficar pobre e ainda não entender nada que esse povo fala na rua?"
O problema é que nem o 1 nem o 2 estão pegando direito por aqui. Muitas interferências. Queria saber quem é o dono do controle remoto e pedir para ele definitivamente escolher só um botão. Dizem que uma hora, naturalmente, a TV acha sozinha o canal certo. E um tem que apagar, para o outro definitivamente funcionar direito.
Cheguei. Nenhuma imagem ainda é nítida. Nem vejo ainda muito sentido na programação. Às vezes parece estar se formando um foco.
Mas basta uma pergunta difícil e a imagem se apaga de novo. Uma tristeza, e só se escutam ruídos. Um rastro de solidão, e a tela fica totalmente escura.
A onda passa e ressurgem algumas imagens: a descoberta de uma palavra nova, meu olhar mais profundo sobre mim mesma, a difícil arte de amar à distância, a oportunidade de elaborar opiniões consistentes sobre as coisas à sua volta, o entendimento real da dimensão da cultura. Me parecem razões suficientes para fazer funcionar o canal 1.
So, turn it on.
Considerando o estágio absolutamente disforme em que se encontrava (e se encontra) a minha mente, a pergunta até que soaria normal. Mesmo vindo de uma holandesa de cabelo desgrenhado e absolutamente pálida, com um pijama preto de moleton cujo tamanho devia superar em mais de três vezes o peso dela.
O problema é que brasileiro acha que tudo é pegadinha. Ainda sem foco, meu cérebro reagiu. "Isso lá é pergunta que se faça? Eu, heim..."
Fiquei ainda um minuto em silêncio tentando elaborar a melhor resposta em inglês. "No, sorry." Enquanto o canal 1 processava a mais correta e rápida resposta, o canal 2 pensava assim: "Ô fiota, tá pensando o que? Tá me estranhando? Onde é que tu tá vendo ovo aqui, ô gringa descabelada?"
Viver em dois canais é quase desumano. Te leva a reagir com sarcasmo diante de uma pergunta pueril. A garota precisava de ovo (cada um com suas crenças) para curar uma ressaca qualquer. Mas o canal 2 é cruel, é a memória remota, nativa, elaborada.
O canal 1 é medroso, lento, acanhado. O seu novo canal. Do tipo incapaz de fazer qualquer comentário depois de ler na TimeOut que Vinícius Cantuária vai se apresentar em Londres. "Hahahahahahahahahahahahahahahaha. Vinícius Cantuária? O cara ainda existe? E a gringalhada acha que o sujeito faz sucesso no Brasil? E não é que ele se deu bem aqui fora? Como era mesmo aquela música horrível que ele cantava? Viva Nova York! Trouxe o Vinícius até Londres." Resposta típica do canal 2.
O canal 1 tenta com delicadeza entender o inglês do chinês de Pequim cuja espessura dos óculos consegue ser menor que a de seus olhinhos. "Que porra de língua é essa que tu tá falando, meu irmão?", fica zumbindo o canal 2, concomitantemente.
Student Residence, single room, chinese roommates, tutors, lectures, Self Study Centre. O canal 1 não se irrita com a retomada de uma vida simples, difícil, regrada. Deixa fluir. Mas o 2... "Tem que ter algum sentido essa merda toda que eu estou fazendo. Que porra eu vim fazer aqui pra ter essa vidinha de merda de estudante, largar tudo, deixar meu amor me esperando, ficar pobre e ainda não entender nada que esse povo fala na rua?"
O problema é que nem o 1 nem o 2 estão pegando direito por aqui. Muitas interferências. Queria saber quem é o dono do controle remoto e pedir para ele definitivamente escolher só um botão. Dizem que uma hora, naturalmente, a TV acha sozinha o canal certo. E um tem que apagar, para o outro definitivamente funcionar direito.
Cheguei. Nenhuma imagem ainda é nítida. Nem vejo ainda muito sentido na programação. Às vezes parece estar se formando um foco.
Mas basta uma pergunta difícil e a imagem se apaga de novo. Uma tristeza, e só se escutam ruídos. Um rastro de solidão, e a tela fica totalmente escura.
A onda passa e ressurgem algumas imagens: a descoberta de uma palavra nova, meu olhar mais profundo sobre mim mesma, a difícil arte de amar à distância, a oportunidade de elaborar opiniões consistentes sobre as coisas à sua volta, o entendimento real da dimensão da cultura. Me parecem razões suficientes para fazer funcionar o canal 1.
So, turn it on.
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