sábado, 6 de dezembro de 2008

Ethiopia in London

Além de saber que a Etiópia ficava perto do Sudão, mas não aparecia no tabuleiro do War, eu também me lembrava daquelas cenas tenebrosas da crise de fome maciça de 1984 e que havia se repetido em 2002 naquele país.
O fato de sempre ter associado Etiópia a fome tornava ainda mais estranho sair para jantar num restaurante etíope. Mas a curiosidade move o homem, e comer com as mãos algo bastante apimentado me levava a crer que despertaria meus mais primitivos instintos; então, sequer hesitei.
Primeiro tentamos o Fassiba, mas o cheiro de incenso e o salão absolutamente vazio não nos inspiraram.
Seguimos para o Addis Ababa. Ali sim era o lugar. Repleto de etíopes, que se assustaram com nossa chegada. Música etíope ao vivo, com Tilahun e Zewditu, esse último carinhosamente apelidado por mim de Seu Dito.
Tilahun é uma negra maravilhosa, que se mexia como cobra Naja em meio a seu canto hipnótico. Seu Dito me lembrou muito o Lombardi, pois freneticamente gritava "Rarraiiiiiiiiii", enquanto a Tilahun gritava zazazazazazazaza e botava pra quebrar com os ombros. Claro que poucos minutos depois a banda virou Zazá e Seu Dito.
Pedimos o prato para dois, com direito a tudo. Todos os sabores, todos os tipos de pimenta, todas as cores. Também provamos a Bati, uma deliciosa cerveja etíope.
A comida chega em lindas tijelas, mas a mocinha etíope despeja tudo rápida e harmonicamente num tabuleiro gigante forrado com uma espécie de massa de pão semi-crua. O cheiro entorpece. Há ainda vários rolinhos de pão na cestinha. Fico intrigada com a beleza das louças, já que ali só vale gol de mão.
Olhamos para o lado, com o intuito discreto de checar se todos os nossos amigos etíopes vão mesmo comer com a mão esquerda, pois a direita é utilizada para outras coisas (coisas que não devemos mencionar na hora de comer).
Mas não. Eles comem com a direita mesmo, e nos achamos no mesmo direito. Prosseguimos. Como eu imaginava, comer com as mãos é libertador. E pimenta é algo purificante.
Stefan chega à conclusão que a música de Zazá é um ingrediente necessário para que nosso intestino não pule pela goela afora desesperado com a pimenta ou para que o estômago não comece a fazer gracinha num lugar público. Eles dois simplesmente se acalmam enquanto Seu Dito grita como Lombardi e Zazá sai se esfregando no ar pelo salão.
O povo é lindo, mas quieto. Eles todos têm um ar meio triste (eu sempre achei todo etíope triste, desde 1984). A manifestação mais intensa e efusiva da cultura está concentrada nos ombros. Acho que eles sambam com os ombros. No dia em que você vir um etíope dançando entenderá bem o que eu quero dizer. Fará imediata analogia com samba.
Quando eles tomam mais de duas Batis, batem palmas. Mas não uma palma qualquer. Uma palma etíope. O som, o observa com precisão meu namorado, é o de dois toquinhos de madeira se encontrando. Palma etíope.
A galera do Adis Ababa começa a se acostumar com a nossa presença _ os únicos gringos do restaurante _ e Zazá fica dando uma de Naja na minha frente. Eu tento bater a tal palma de toquinho (já estou na segunda Bati) para ela, mas a coisa não engrena. Tenho uma simples palminha brasileira. Zazá, toda simpática, agradece.
Levamos as tampinhas da Bati para fazer uma aliança no futuro. Eu cismo que a tampinha tem um mapa da Etiópia desenhado, mas claro que Stefan consegue me provar em um segundo a minha inabilidade para identificar imagens; se trata de um leão deitado, o símbolo da etiópia.
Deixamos o Addis Ababa felizes e sorridentes (ainda que eu tenha ficado muito preocupada com a naturalidade com que Stefan encarou o ovo cozido de gema meio esverdeada que, espero eu, tenha sido mesmo de galinha; e ainda que em dois momentos tememos ter os músculos da face paralisados para sempre pelo efeito da pimenta).
Pronto. Assim é a vida dos que experimentam.
Agora preciso visitar a Etiópia, e inclui-la, por conta própria, no meu tabuleiro do War.

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