Enclausurar-se e ler por horas e horas a fio é uma experiência recompensadora, hipnótica. Entendo perfeitamente porque as freiras carmelitas descalças conseguem sorver a bíblia e todos os apóstolos até a última gota.
However, a prática também deixa qualquer ser humano com um pino a menos. Especialmente quando você tem que ler, ler, ler, inspirar-se e escrever três essays de três mil palavras cada enquanto acha que não consegue pronunciar nem uma frase completa em inglês com nexo. Quem dirá um ensaio...
Todos os estudantes estrangeiros sabem bem o que eu digo, e entenderão o raciocínio freudiano a seguir.
Eis que me pego pensando (e sonhando) com a estruturação do Estado, com as teorias do desenvolvimento, estruturalismo, construtivismo, corporativismo, populismo, modernismo, liberalismo, autoritarismo, institutionalismo. Como não sei bem definir nenhum conceito, me deito no sofá.
O sofá em questão (no sonho) é o da casa da vovó Guará e do vovô Análio. Havia lá dois sofás. O mais escuro, grande, aconchegante, disputado por todos os netos. Na hora da novela, eu, Elisa, Grá e Dani quase nos matávamos por uma vaguinha no sofá. Era a sensação da noite, porque a vaga no sofá também garantia a melhor visão da queda da dentadura do vovô enquanto ele lentamente adormecia. Era batata. Tinha hora marcada. E em meio às nossas risadas incontidas, o Seu Análio acordava nervoso, botava a dentadura no devido lugar e, irritado, desligava a TV. E enquanto os adultos nos olhavam com aquela cara de ódio, esperávamos a contravenção seguinte. Aguardávamos algumas horas para o vovô ir dormir e, depois, era só caminhar pé-ante-pé, ligar a TV, rezar para a antena pegar e ver o Tela-Quente de sábado (sim, nas telas da Globo).
Portanto, não era um simples sofá. Era o nosso sofá. Era o sofá da visão privilegiada, do mundo novo que se abria depois das onze da noite. Era o sofá que nos permitia delimitar o território com a classe adulta. Era o nosso símbolo do desenvolvimento, a marca do nosso autoritarismo infantil, onde nos estruturávamos enquanto classe, nos definíamos hierarquicamente (quem ia ligar a TV naquela noite depois que o vovô fosse dormir, quem vigiaria a porta, quem levaria a culpa, quem se assentaria nas pontas e no meio do grande sofá). Basicamente, o sofá era a âncora do nosso institucionalismo, o iceberg construtivista da infância.
E, agora, exausta, me deito no sofá (volto ao sonho).
E eis que um amigo intelectual abre a porta da sala, também no sonho, me vê deitada no sofá grandão, feliz da vida, e me pergunta: Já terminou os seus essays?
Digo que sim.
- "E formulou alguma teoria?"
Não, respondo assustada.
- "Então não serve."
Desesperada, sou obrigada a me levantar do sofá.
E entendo que só me resta deitar no outro sofá, que ficava à frente do sofá grandão. Este sofá azul clarinho era desprezado por toda a classe na infância. Era frio, ficava ao lado da TV. Sendo assim, o infeliz que não tinha vaga no sofá grandão e era obrigado a se sentar no sofá frio vivia apartado da realidade. Não via a TV de frente, nem o vovô de tão perto. Resumindo: o sofá frio azul clarinho não tinha graça nenhuma. Era a escória da humanidade.
E, sem teoria, só me restou o sofá frio (no sonho).
Acordei irritadíssima (ao fim do sonho) com a decisão imbecil de sair do aconchego do sofá grande só porque não tinha formulado uma estúpida teoria. Perguntei-me, acordada, por que aceitei tão pacificamente a auto-punição de me deitar no sofá frio azul clarinho.
Como Freud era um cara que manipulava com maestria a arte da criação das teorias, eu acredito que o meu inconsciente está gritando vários recados.
Então, resolvi criar a teoria do sofá:
1) Sempre haverá os lugares quentes e os frios. Não é preciso ser muito inteligente para decidir em qual você quer estar, mas você também sabe que alguns momentos da vida obrigatoriamente vão te levar para os frios, porque é só neles e eles que vão te dar a real perspectiva do que é viver e desfrutar dos lugares quentes;
2) Todas as pessoas vão te cobrar teorias sobre tudo, especialmente depois dos 30. Se você disser que não as têm ou se admitir em público que não sabe bem do que se trata a consequência pode não ser das melhores. Portanto, finja que tem uma teoria. Ou você acha mesmo que os acadêmicos entendem em profundidade o que é a dialética da luta de classes? Invente, tente, formule uma teoria diferente;
3) Quando tiver netinhos, perca sempre a dentadura ao lado deles e finja que está dormindo. Eles certamente terão os mais divertidos momentos da infância. Você, as mais doces lembranças da sua vida. O efeito da queda da dentadura, se é que vocês me entendem, não é externo, mas interno;
4) Tenha dois sofás em casa e volte ao item 1 para entender o que eu quero dizer com isso, pois o 1 é uma espécie de nota de rodapé da análise 4 (e a dinâmica de notas de rodapé é essencial para quem quer formular teorias);
5) A vida é como um sofá. Aparentemente, você pode se deitar no que quiser e ao lado de quem lhe apetece e te acrescenta algo. Porém, se a sala estiver cheia e você não chegar na hora certa e não conseguir formular uma teoria convincente para garantir o seu lugar, já era. Quem vai ao ar, perde o lugar. Para os que não vivem, só resta o sofá frio. Aquele que fica bem à frente do sofá grandão...
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Um comentário:
o sofá frio manda uma nota de reclamação dizendo que não concorda com as teorias que privilegiam o sofá quente.
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