Não tenho mais dúvida sobre a existência de uma sincronia energética no universo, ainda que eu não saiba a essa altura da vida se sou budista, espírita, cristã.
Não sigo nenhum rito religioso, não canto, não sei balbuciar "rezas" formais _ exceto aquelas conversas estranhas comigo mesma e sempre inconscientemente direcionadas a alguém no universo. Mas sei entender alguns sinais e, não sabendo exatamente de onde eles vêm, prefiro sempre achar que eles vêm lá de cima. Melhor que achar que vêm debaixo (essa coisa de perspectiva conta muito, sabe?).
Considerações astrológicas, geológicas ou teológicas à parte, o fato é que vim morar aqui na Staveley Close, em Londres, porque eu precisava conhecer duas "gajas" portuguesas. Anna e Catia.
Primeiro conheci Anna. Por acaso. Comentei com uma holandesa que eu estava à procura de apartamento, uma luta ingrata em Londres. A holandesa falou para portuguesa (que na verdade é metade canadense, metade portuguesa, um quarto francesa e 0,000025% inglesa)que uma brasileira estava procurando flat. A portuguesa me chama para uma conversa. Vou com a cara da rapariga de imediato. Dois dias depois ela me convida para vermos uma casa. As duas entram "no sítio", se olham e pimba: "Precisamos morar aqui". Foi automático. Chegamos à mesma conclusão, rapidamente.
E assim aconteceu. Catia chegou duas semanas depois.
Na sucessão de sinais, descubro que o telefone da Anna é o telefone da casa dos meus pais. Dias depois, as duas me contam que as duas melhores amigas delas, em Portugal, eram a Maria e a Lúcia. E, agora, elas têm o pacote "dois em um" _ olha eu aqui, com o nome composto escolhido por papai e mamãe.
Catia é apaixonada por música brasileira. Bossa nova. Elis é sua preferida. A minha também.
Anna adora gim. Minha bebida favorita. (A segunda é whisky, também na lista das preferidas da Anna).
Em menos de um mês conseguimos estabelecer uma espécie de rotina socialista na casa: "Posso comer um tomate seu e depois você pega se quiser uma maçã? Você me empresta hoje o seu vestido? Olha, tenho um gravador, se quiser usar na sua entrevista. Estou precisando de dinheiro. Me paga na semana que vem. Vou preparar o jantar. Já comeste? Vamos fazer uma sopa? Eu tenho abóbora; você, as cenouras".
Rejeitando a "mais valia", assistimos a Grey's Anatomy e House juntas e discutimos sobre o futuro do mundo. Se Marx e Engels pudessem nos contratar para o staff de uma campanha política, estariam feitos. Adeus Obama, adeus McCain. O mundo acreditaria de novo num final feliz para a luta de classes e num modelo de poder tripartite.
Falamos a mesma língua. Não exatamente. (Por favor, nunca diga que está 'procurando um bico' quando estiver em Lisboa. Evite também comentar que está usando o "broche" da vovó, seu preferido. Se quiser comprar calça jeans na terra de Dom João, diga calça de ganga. Domingo é dia de ir à "pixina". Guarda-fax para uns, ou guarda-fatos para outros é um jeito interessante de dizer "guarda-roupas". Os putos ficam em bichas na escola. Parece estranho, mas ficam, lá em Portugal. Fish é peixe só em inglês. Se o cara é giro, vá adiante porque a aventura vai valer à pena).
Acho que a vida vai ser assim: Anna vai se casar com um gajo e morar no Chipre, numa casa simplesmente estonteante. Vai ter dois filhos. Lindos. Eu e Catia vamos sempre visitá-la no Natal.
Catia vai estar morando no Brasil. Primeiro, vai passar um tempo cantando bossa-nova. Vai fazer sucesso lá, achar um gajo brasileiro e morrer de paixão. E tesão. Depois de algum tempo, apesar de amar música, vai decidir voltar para a Biologia Molecular. Será convidada pela USP para desenvolver um projeto revolucionário no tratamento de câncer.
Eu... vou estar aonde mesmo? Não consigo imaginar. Só sei que vou estar com o meu "petusco", com a Eduarda ou o Joaquim, provavelmente andando de bicicleta na Patagônia. Talvez a gente também consiga levar adiante o plano de comprar a Land Rover e andar mundo afora com nossos "miúdos". Só sei que vamos estar juntos.
E que teremos compromisso no Natal.Ou no Ano Novo. Ou na primavera.
Mas ninguém pode ficar muito tempo sem saborear os Pastéis de Belém.
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