Comprei uma bicicleta. Vermelha.
Não dá pra descrever a sensação de liberdade de uma pessoa de bicicleta numa metrópole, especialmente se a pessoa em questão veio de São Paulo.
Hoje, particularmente, deixei a bike em casa. Tinha que assistir a uma Conferência, precisava chegar cedo, etc, etc, etc.
Na volta, resolvi caminhar. Vim pensando nos efeitos do credit crunch na minha conta bancária.
Nunca fui do tipo de gente que dá importância exacerbada a dinheiro, mas perder muitos Reais em uma semana dá um frio na barriga para quem vive em... LONDRES e não teve a brilhante idéia de transferir seu dinheiro para... LONDRES.
Enquanto sonhava com cifras e me desesperava, uma inglesa de colete verde limão despenca da bicicleta quase a meu lado.
Vejo duas pessoas correndo em direção a ela, em segundos. Corro também.
A cabeça jorra sangue, ela está meio inconsciente. Depois chora, se desespera ao ver as mãos totalmente vermelhas.
Uma italiana, que tenta ajudar, chama a ambulância. Disca e me entrega em seguida o celular dizendo que não sabe falar direito em inglês. Eu muito menos.
Pouco minutos depois, estou com o celular da italiana, falando com os paramédicos ingleses que nos orientam sobre o que fazer com o ferimento. Tento relatar ao ciclista inglês que socorreu a ciclista inglesa estatelada no chão o que os paramédicos recomendam que façamos com a "cabeça" dela. Testamos se ela está de fato consciente, perguntamos seu nome, idade, em que cidade vive.
Em cinco minutos a ambulância chega. Finalmente perdôo o excesso de barulho de sirenes em Londres. O sistema funciona de fato. Você liga, e em cinco minutos a ambulância chega. Talvez porque em Londres o número de bicicletas tenha aumentado consideravelmente e as ruas estão mais livres. E, sendo assim, é preciso mesmo ter mais ambulâncias para socorrer prontamente os acidentados de bicicleta.
Meu momento E.R dura pouco, mas é altamente reflexivo.
Eu pensava em credit crunch e o inusitado acontece à minha frente.
Andei mais um pouco, ainda em estado de choque.
Hoje, havia deixado a bicicleta vermelha "estacionada" em casa.
Sinto-me reconfortada, por alguma razão.
E consciente de que tombo na conta corrente não mata.
Já os outros, esses são outra história.
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Um comentário:
Primeiro eu queria só ler as novidades, assim, sem maiores anseios.
Daí, na primeira linha do primeiro post que li _lá em 29 de abril, quando você faz o elogio do amor e da saudade_, um sopro forte me lembrou da delícia que é seu texto. Não consegui mais largar.
Queria eu escrever desse jeito cronicamente [de crônica, não de crônico] gostoso...
Queria eu poder estar aí para lhe dar um abraço agora, antes de me teletransportar de volta para essa vidinha insólita e ocidentalmente banal aqui...
Pelos textos, eu vi você, rimos juntas do ironicamente possível, tomamos sorvete com a inocente Mei, revi todo o Miss Sunshine na minha cabeça, me senti a pessoa mais burra da língua inglesa [e de fato estou abaixo de Mei], fiquei com vontade de escrever texto sobre anão ladrão, vi sangue borrando asfalto. Lembrei da gente dançando Dancing Queen no aniversário de Flavinho, eu, você, Lili, ele, todos pulando, naquele dia em que minhas lágrimas me assaltaram.
Quanta vida linda em tudo que li! Estou extasiada. E com muito mais saudade do que antes...
Fique sempre bem :)
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