Cheguei em London há dois meses. Coincidentemente, hoje peguei a nota final do meu curso de inglês. Alcancei o score que precisava. Na verdade, não havia uma imposição para alcançá-lo. Minha oferta para entrar na universidade é incondicional.
Mas existe uma estranha característica em mim.
Quando traço metas e objetivos, realmente vou até o final. Sei que posso ter êxito ou não, mas sou bastante consciente disso. Meu plano era chegar, fazer o curso de inglês, tentar melhorar minha nota e entrar para a universidade mais tranquila. It's done.
Claro que não estou fluente, mas na última semana atendi o celular com uma desenvoltura jamais imaginada quando cheguei aqui. Claro que várias palavras e sentenças ainda flutuam no limbo do vocabulário desconhecido, um profundo buraco negro existente na mente de qualquer indivíduo que começa a interagir diariamente com uma nova língua.
Chega também ao fim meu período na residência estudantil. Estou me mudando no final de semana para uma nova casa. Vou morar com desconhecidos. Uma nova aventura. Um inglês, uma belga, duas portuguesas (sendo uma delas half canadian, half portuguese). Ou seja, vou ter muita chance de falar inglês em casa. E quando encher o saco, apelo para as raparigas, que me matam de rir com os verbos e as expressões inusitadas. Certamente serão novas histórias do blog.
Mas o mais interessante é como o corpo e a mente se adaptam a novas situações. Acho que vou ter saudade do meu quartinho minúsculo, do colchão de molas torto. Mas vou ter muito mais saudade de quem eu conheci.
O sol não brilha para todo mundo aqui nesta terra cinza. Como eu previa, minha amiga do Taiwan não alcançou o score que precisava. Agora, ou ela volta para o Taiwan, ou negocia com a universidade um master especial, sendo obrigada a fazer um curso de inglês concomitantemente. Mas não sei se ela terá dinheiro para isso. Provavelmente não.
Eu tinha certeza de que ela não passaria, e tentei várias vezes aconselhá-la a buscar um plano B. Simples assim: inscrever-se para um outro teste de inglês fora da universidade. Mas a filosofia oriental dela é imiscuída de uma estranha paciência. Só se dá um passo de cada vez. Nada de plano B. Espera-se o resultado do A e se ele não der certo, só então pensa-se no que fazer. Sem pressa, sem açodamento. Só que agora não há muito a fazer.
Mei ficou trancada no quarto, provavelmente chorando todo o dia. Se os seus olhos já são pequenos, era impossível vê-los no início da noite. Mandei duas mensagens no celular dela. Depois, disse para a belga que Mei estava deprimida.
Resolvemos bater no quarto da nossa amiga oriental, sem plano B. Perguntamos se podíamos fazer algo por ela, se ela queria sair para andar, tomar uma cerveja, ir ao cinema, ver um filme. Ela disse que não. Que só queria dormir e acordar cedo no dia seguinte para tratar da sua situação. Tentar achar um novo plano A, já que os Bs não existem jamais em seu cérebro.
Vim para meu quarto incomodada, a belga idem.
A belga me manda uma mensagem: "Precisamos fazer algo pela Mei".
Alguns minutos depois, a belga bate no meu quarto: "Trouxe meu computador com filmes. Vamos vê-los no quarto da Mei. Ela vai escolher. E temos sorvete, não temos?". Digo que sim, temos ainda uma lata de sorvete no congelador.
Enquanto a belga abre a tela eu encho os três potes de sorvete e os levo para o quarto da Mei. Me emociona ver a rapidez com que a belga, de 21 anos, achou um plano B para ficarmos ao lado da Mei.
Decidimos que queremos ver um filme alegre. Sugiro Little Miss Sunshine.
A belga tem os subtitles em holandês, o que não ajuda muito Mei a entender o inglês. Mas vamos em frente. Temos sorvete.
Mei não entende várias coisas, sobretudo por que o avô é viciado em cocaína. Na verdade, não entende que cocaína é para cheirar. Vou explicando-lhe passo-a-passo.
Depois, ela pergunta assustada por que todos empurram a Kombi juntos. Explico que as marchas 1 e 2 estão quebradas. É preciso que alguém dê a largada, empurrando a Kombi, para só depois colocar a terceira e quarta marchas e seguir adiante.
Terminamos a sessão de cinema e Mei nos dá um abraço apertado. Me pergunta quantos filhos eu quero ter. Digo, brincando, que "um e meio". Ela quase acredita. Depois explico que talvez apenas um, porque a vida anda difícil. Ela concorda. Acha que também terá apenas um, sobretudo porque a situação em seu país não é nada fácil. A belga acha estranho. Diz que precisamos ser otimistas, que talvez nossos países sejam melhores em vinte anos e nossos filhos possam ter acesso a boas universidades gratuitas, como em toda Europa.
Eu começo a rir. Digo para elas que o mundo vai acabar, e não melhorar.
Mas confesso que saio do quarto vendo uma luminosidade diferente na cinzenta Londres.
Sim, talvez eu esteja numa Kombi amarela de porta quebrada, buscando gente que possa me ajudar a empurrá-la até que ela pegue no tranco.
Mas quando a vida não é um concurso, e só simplesmente um doce raio de sol, a gente se permite viajar thousands and thousands miles, sem se preocupar com um plano B.
E sempre tem o sorvete pra ajudar.
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