segunda-feira, 18 de agosto de 2008

"Susie and the thief", or my angel from Taiwan

Sempre acreditei no famoso 'anjo da viagem', aquela pessoa que inesperadamente surge para te dar uma mãozinha quando você está prestes a ter uma síncope nervosa diante das inúmeras dificuldades que é obrigado a enfrentar num país inóspito.

Só não estou congelada na porta do Palácio da Catharina nas redondezas de Moscou até hoje porque uma alma abençoada apareceu do além e me apontou a parada do ônibus para voltar ao meu hotel. Não sei de onde aquela mulher surgiu, do que ela era feita, e muito menos como ela entendeu que eu e minhas amigas estávamos perdidas num lugar quase deserto e sem a menor chance de abstrair nossa origem latina para ver algum sentido nas letrinhas do alfabeto cirílico. Mas sobrevivemos, graças ao nosso anjo da viagem.

Também poderia estar presa num sombrio calabouço na Estônia se o soldado da imigração não fosse um obcecado por futebol e, por sorte minha, capaz de associar o nome Brasil ao nome Ronaldo.

Numa periferia da Cidade do México, um velhinho me parou na porta do metrô sabe lá deus porque e, em seguida, me disse para tomar cuidado e obedecer "a fila dos homens e a fila das mulheres". O aviso, basicamente, me poupou de ter sido "amaciada" por vários mexicanos, cuja voracidade para tocar as moças no metrô levou o governo local a tomar medidas mais drásticas, tipo aquelas do jardim de infância, onde você coloca meninos de um lado e meninas do outro.

Aqui em Londres não poderia ser diferente. Ainda que já contasse com alguns anjos especiais (os amigos que moram aqui e que hoje são meu pão, minha comida, todo amor que há nessa vida), acabei me deparando com outro, de nova nacionalidade. Desta vez, meu anjo é do Taiwan.

Mei foi a primeira pessoa que conheci no alojamento de estudantes, no dia em que cheguei. Ela foi totalmente simpática, apesar do inglês sofrível, e eu quase me inclinei para cumprimentá-la, seguindo as normas orientais.

Estamos fazendo o mesmo curso de inglês, mas não na mesma turma, pois fiquei alguns níveis acima do dela, o que, por sorte minha, é um ótimo sinal. Vamos todos os dias juntas para a escola. E, aos poucos, meu anjo se revela. E revela seu inglês.

Certo dia ela me perguntou se eu iria ao piquenique no Hyde Park. Disse que sim. Falávamos sobre qual comida levaríamos e de repente ela pronuncia 'Susiiiii'. Eu entendo que provavelmente Susi devia ser alguma amiga que ela gostaria de convidar para o piquenique. Pergunto a ela se a Susie também vai ao Hyde Park. Ela diz que sim, mas precisava primeiro 'enrolar a Susie'. Eu fico com medo de perguntar o que isso significa. Alguns minutos depois, pergunto se Susiiiiiiii é mesmo uma pessoa. Ela grita, corre para o armário, pega uma alga, enrola com as mãos. Ufa!!! Depois de meia hora entendo que ela queria levar 'sushie' para o parque (gosto não se discute).

Outro dia me contou que uma amiga dela da China tinha quatro empregos aqui em Londres e tinha que ralar muito porque o marido, em Taiwan, era 'shif' e ganhava muito pouco. "Thief?", perguntei assustada, já imaginando a pobrezinha da chinesa guardando dinheiro pra visitar o marido preso em Taiwan. "Yes", ela responde. Pergunto de novo o que ele roubou no Taiwan. Ela me olha assustada. Eu digo: Mei, você acabou de dizer que o cara é ladrão. Ela se corrige, desesperada. "No thief, no thief... Shif". "What shif means, Mei", eu pergunto de novo. What is his job in Taiwan? "He cooks", ela responde. "Chef, Mei, he is a Chef!!!! He is not a shif."

Apesar de nossos desencontros linguísticos, sem a Mei eu não teria tido paciência para esperar por duas semanas até que a conexão de internet funcionasse em meu quarto. Caso não tivesse ouvido atentamente os conselhos alados do oriente, teria surrado a árabe que é responsável pelo 'helpdesk' no setor de informática da universidade (e ainda bem que não seguem aqui a Lei de Talião).

Meu anjo do Taiwan me ensina a conseguir os melhores descontos para estudantes, me mostra todas as novidades tecnológicas que me permitem ter televisão, rádio e telefone no notebook, bate no meu quarto quando percebe que eu perdi a hora e vou chegar tarde na escola. Onde eu arrumaria grampeador, secador de cabelo e furador se não fosse a Mei? E imagine se eu, by myself, iria me preocupar em fazer todos os cartões de supermercados para acumular pontos e ganhar alguma coisa no futuro (ainda que meu ceticismo ocidental não me permita acreditar na eficácia disso).

O que mais me impressiona é a humildade do meu anjo, o que tem me feito entender a lógica oriental e me obrigado a refletir sobre o rasteiro sentido da vida segundo a lógica do Ocidente. Mei me contou que é budista. A vida, para ela, só tem sentido se for para ajudar quem precisa. Isso explica porque ela aparece na aula com uma pomada chinesa especial para bolhas porque está preocupada com o pé em frangalhos da nossa colega belga que insiste em usar sandálias e não tênis. 'Sempre tente sentir o que o outro sente' é o slogan que resume a filosofia de vida desse anjo taiwanense. Também teria me achado incapaz de manter um relacionamento à distância duas semanas depois de ter chegado aqui, caso não tivesse dado ouvidos à sabedoria do oriente.

Dei a ela um novo apelido: 'Magaveir' (ela sempre vai ter uma solução para tudo, ou pelo menos para todos os meus problemas e dilemas tolos). Ela sorriu, mas achou exagerado demais, diante das 'tão pequenas coisas' que faz por mim.

Típico dos anjos. São o que são. Não querem nada em troca.

Um comentário:

Thiago disse...

Noooosssaaaaa .... já tô até vendo Wenceslau.... Cheia de cartão de supermercado né?!
Já tem do Epa?! Se quiser mando fazer aqui e te envio, e um rolo de barbante tbm!
Hahaha
Té +