domingo, 3 de agosto de 2008

Don't cross the line

Além de aprender mandarim (já que 99% dos meus coleguinhas são chineses) em Londres e de não conseguir melhorar meu inglês, tenho certeza absoluta de que essa experiência aqui vai me obrigar a considerar o relógio no futuro.
Se o seu "tutor" diz que quer te ver às 9h15, isso significa que ele REALMENTE estará na salinha te esperando pelo menos desde às 9h14. Ou seja, aquele negócio de atrasar só cinco minutinhos não cola.
Mas isso ainda é novo e o meu estranho estado de espírito de eterna preguiça desde que eu cheguei aqui me permitia atrasar pelo menos dois minutinhos. Só que nesta semana a coisa ficou feia e eu realmente tive que correr.
É importante lembrar que a Lei de Murphy funciona com toda intensidade quando você está morando fora, desesperada, triste, inquieta, cheia de dúvidas. Claro que no dia da minha Tutor Class a polícia de Londres resolveu fechar TODAS as ruas nas redondezas da Euston Station.
"Tá de sacanagem", eu falei baixinho em português para um chinês do meu lado, assustadíssimo com a abordagem na minha língua nativa. Corrigindo-me logo em seguida, perguntei ao sujeito se ele sabia o que estava acontecendo. Nada.
Todos os policiais estavam lá do outro lado da rua, a pelo menos dois quilômetros. Olhei para um velhinho inglês do meu lado, que também não entendia o que estava acontecendo. Como se fóssemos cúmplices, resolvemos os dois atravessar a linha. Puxa, a estação estava tão pertinho, estávamos atrasados, sabe como é...
Pois bastou dar dois passos e uns três policiais britânicos apareceram num passe de mágica. Um deles olhou fixamente para mim e, correndo, na minha direção e na do velhinho, gritou: GO BACK........
Eu gelei. Virei as costas correndo e fiquei imaginando o pior:

a) ele vai atirar;

b) ele vai me multar (quase tão ruim quanto a primeira alternativa);

c) ele vai pedir meu passaporte e eu não tenho nenhum documento aqui;

d) ele vai gritar puto comigo e eu não vou entender nenhuma palavra do que ele vai dizer (só um pouco melhor que a letra a).

Mas... Enquanto pensava em tão nefastas possibilidades eu também andava apressada para que não houvesse tempo de o guardinha chegar perto de mim.
E eu sabia que o vovô inglês estava do meu lado. Éramos cúmplices. Olhei para o vovô, mentalizei em português e tenho certeza que ele entendeu: "Fofo, faz um favor pra mim... Fica aí conversando com o guardinha, distraindo-o, enquanto eu volto correndo, atravesso de novo a linha e sumo daqui em dois segundos. Afinal, você é um senhor inglês, ele vai achar que você só atravessou a linha porque está gagá e não vai acontecer nadica de nada com você. Já comigo...".
Pronto. O vovô entendeu. Acho até que ele me fez um sinal. Run, Lola, run. The situation is under control.
Enquanto eu andava apressada _ com os cabelos já não tão vermelhos assim _ eu escutava o velhinho se desculpando com o guarda, pedindo informações sobre o que estava acontecendo e perguntando qual caminho ele teria que fazer para chegar à estação. Eu só escutei a resposta do guarda sobre o melhor caminho alternativo a percorrer.
Tive que dar uma volta desgraçada e, resultado, cheguei CINCO minutos atrasada na Tutor Class, botando os bofes pra fora e tremendo que nem vara verde. Expliquei ao professor a razão do atraso, me desculpei mil vezes.
E ele logo disse que tudo bem, às vezes os londrinos são surpreendidos por esses bloqueios repentinos nas ruas. E acrescentou: mas quando isso acontece geralmente é tentativa de bomba, um crime grave ou alguma obra, num caso mais simples.
Eu realmente evito pensar que a razão do bloqueio possa ter sido alguma das duas primeiras citadas pelo meu tutor e prefiro acreditar que se tratava de uma obra qualquer.
Quando cheguei em casa _ nesse quarto que agora sou obrigada a chamar de casa _, finalmente entendi que aqui não se pode dar sorte ao azar.
Ou seja: na dúvida, DON'T CROSS THE LINE.

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