Criou-se um ouvido em meu cérebro.
Agora busco bocas soltas nas ruas.
Escuto palavras que seguem lentamente o vento. Trocam de corpos.
O escambo faz frases.
Idéias soltas viram texto.
Às vezes as espanto com meu leque.
Mas não consigo afugentá-las.
Pairam sobre mim como corvos pretos da Torre de Londres, como urubus que sorvem carne putrefata.
Elas me inundam, me refrescam.
Olho de novo e volto a procurar essas tantas bocas.
Distribuo mapas aos sons.
Eles se deitam então sobre o papel.
Riscam o branco, faz-se a partitura.
Começo a tocar.
Tenho um ouvido em meu cérebro.
Agora me embalo e consigo dormir.