A poucos metros da sua casa, um rato branco agonizava no chão. Havia sido atropelado, e se contorcia. A cena a incomoda, ela olha a chuva. Fusão de nojo, angústia, compaixão.
Chega em casa e o telefone toca. A amiga que mora na Europa diz que precisa conversar.
- Preciso me desvencilhar dele e não sei como fazer.
Interrompe a conversa e dá um grito. Um rato havia entrado no aquecedor.
Ela volta. Retoma a conversa.
- Preciso mesmo me livrar dele. Está incômodo, fico muito angustiada com a presença dele aqui.
- É só matar, com vassoura.
- Hein?
- Coloca um spray qualquer, pra ele ficar doidão, e mete a vassoura. Mas de olho fechado, porque é péssimo.
- Não estou falando do rato.
- Ah, tá.
- Mas ele não quer sair, e estou escutando o barulhinho lá dentro.
- Mas você explicou as razões de tudo a ele?
- Agora estou falando do rato.
- Assim não dá. Identifique a vítima, por favor. Acho que você é capaz de se livrar dos dois.
- Não consigo. Ele me completa em tudo.
Ela sabe que não é o rato. E a amiga continua a reflexão.
- Acho que ele apareceu aqui agora só pra deixar tudo ainda mais tenso. Pra eu me questionar: quer ficar sem ele mesmo?!?!?!?!?!?
- Agora me perdi de novo. Ele apareceu aí?
- O rato. Pra me fazer pensar nele.
- Que merda...
- Que merda esse filha da puta do rato imundo.
- Mata logo essa coisa!
- Tudo que eu mais queria era chamar ele pra matar ele (o rato).
- Se tivesse vassoura e spray já tinha matado. Os dois. Eu acho.
- Ou talvez o rato apareceu pra deixar a dúvida - é um homem ou um rato!?
- Homens dão mais pavor que ratos.
- Ou talvez ele apareceu porque essa Europa não tem barata nem inseto, mas tem uma população de 100 ratos para cada 10 habitantes.
- A Europa abriga todos os ratos do mundo. Inclusive ele. Quer dizer, os dois.
- Europa imunda. Quero ir embora daqui.
- Você não vai sair daí. Mas me faça um favor. Mate o rato. Os dois.